Uma chama que segue queimando no underground

Veteranos absolutos do death metal, o Immolation chega ao seu 12º álbum de estúdio mostrando que longevidade, no caso deles, nunca foi sinônimo de desgaste. Pelo contrário: ao longo de décadas, a banda construiu uma identidade única baseada em dissonância, peso sufocante e uma atmosfera quase ritualística — fórmula que segue intacta em Descent.

Dando sequência ao aclamado Acts of God, o novo trabalho mantém o nível elevado e reforça por que o Immolation continua sendo referência dentro do estilo. Sem reinventar a roda, o grupo aposta naquilo que faz de melhor: riffs intrincados, mudanças de andamento inteligentes e uma sensação constante de tensão.

Gravado no Millbrook Sound Studios, Descent contou com produção de Paul Orofino, mantendo aquela sonoridade orgânica e pesada que já virou marca registrada da banda. A arte da capa, assinada por Zbigniew M. Bielak, traduz visualmente o caos e a decadência presentes na música, com uma estética sombria e simbólica que casa perfeitamente com o conceito do disco.

Faixa a faixa

1. These Vengeful Winds
A abertura já chega com imponência, trazendo um equilíbrio certeiro entre groove e agressividade. Os riffs iniciais são marcantes e funcionam como um convite direto ao caos que o álbum propõe. A bateria dita um ritmo firme, enquanto a música alterna bem entre momentos mais cadenciados e explosões de intensidade, mostrando logo de cara a dinâmica do disco.

2. The Ephemeral Curse
Aqui, Robert Vigna mergulha fundo nas dissonâncias. Os riffs são mais quebrados e desconfortáveis, criando uma tensão constante que nunca se resolve completamente. Os solos surgem de forma quase caótica, adicionando uma camada extra de estranheza. É uma faixa que exige mais atenção do ouvinte, mas recompensa com riqueza de detalhes.

3. God’s Last Breath
Uma das mais pesadas do álbum em termos de atmosfera. O andamento mais arrastado ajuda a construir um clima sufocante, quase fúnebre. Ross Dolan entrega uma performance vocal carregada, com graves profundos que reforçam a sensação de desespero e decadência.

4. Adversary
Direta e brutal, essa faixa aposta em riffs mais agressivos e constantes. A intensidade não dá trégua, criando uma sensação de urgência. O solo aparece como um elemento de caos controlado, quebrando a linearidade e adicionando ainda mais personalidade à música.

5. Attrition
Aqui o Immolation trabalha mais o groove, com riffs que “andam” mais e dão uma leve respirada no álbum. Ainda assim, a música mantém o peso e traz mudanças sutis de andamento que evitam qualquer monotonia. É uma faixa que cresce conforme se desenvolve.

6. Bend Towards the Dark
Uma das mais rápidas e violentas do disco. A banda pisa fundo no acelerador, com destaque para a bateria precisa de Steve Shalaty, que conduz a faixa com segurança mesmo nas partes mais intensas. A sensação é de ataque constante, sem espaço para descanso.

7. Host
Mais focada na construção de atmosfera, essa faixa aposta em camadas de guitarra e variações rítmicas. Não é a mais explosiva, mas compensa com consistência e densidade. O trabalho de guitarras cria uma sensação de profundidade que prende o ouvinte.

8. False Ascent
Uma das mais intensas do álbum. O andamento acelerado, aliado aos vocais agressivos de Ross Dolan, faz dessa uma das mais memoráveis. A faixa mantém uma energia constante do início ao fim, sem perder o controle.

9. Banished
Interlúdio atmosférico mais longo, que funciona como uma pausa estratégica antes do final. Apesar de poder soar um pouco excessivo em duração, cumpre bem o papel de criar tensão e preparar o terreno para o desfecho.

10. Descent
A faixa-título fecha o disco de forma grandiosa. Reunindo todos os elementos apresentados ao longo do álbum, a música funciona como um verdadeiro clímax. As guitarras exploram ao máximo a dissonância, enquanto a intensidade geral atinge seu pico sem soar cansativa.

Veredito

Descent não reinventa o som do Immolation, mas entrega exatamente o que se espera — e com qualidade. A banda segue afiada, consistente e fiel à sua identidade, algo raro em carreiras tão longas.

Mesmo sem grandes surpresas, o álbum se sustenta pela força das composições, pela atmosfera densa e pela execução impecável. É mais uma prova de que o Immolation continua relevante e inspirado dentro do death metal extremo.

Nota: 4/5