No Brasil, o Foreigner é aquele típico caso de banda conhecida apenas por suas baladas, o que faz com que o grande público, até mesmo de rock, não tenha conhecimento de que se trata de uma bandaça de classic rock que nos anos 80 viria se tornar um dos maiores ícones do chamado rock de arena. O intuito dessa matéria é tirar os olhos (e ouvidos) do óbvio (como o próprio nome da coluna sugere) e mostrar que o Foreigner é muito mais do que Waiting For A Girl Like You e I Want To Know What Love Is, esta muito conhecida por aqui depois da torturante versão interpretada por Mariah Carey.
Vamos à lista:
Long, Long Way From Home – Foreigner (1977 )
Com um riff de guitarra misterioso e sintetizador reforçando o clima de suspense, o Foreigner mostra toda sua força nessa canção. Típico hard setentista presente no disco de estréia, essa canção serviu de abertura de shows inúmeras vezes, já dando o tom do tipo de som que se proporiam a fazer: rock n’ roll da melhor qualidade.
Lonely Children – Double Vision (1978)
O segundo disco do Foreigner traz hits conhecidos do público como Hot Blooded, Blue Morning Blue Day e a faixa título (usada como abertura do show realizado ano passado no Brasil), mas não para por aí. A nona faixa desse álbum reúne doses de psicodelia, rock progressivo e hard rock envoltos num peso visceral para os padrões da banda. Infelizmente soterrada pelos clássicos, essa música se tornou uma pérola perdida na discografia dos caras.
I Have Waited So Long – Double Vision (1978)
Outra raridade pertencente ao segundo disco, essa belíssima balada evoca Beatles ao longo de seus 4 minutos e 8 segundos. Lirismo e poesia tornam essa canção uma das mais subestimadas na discografia da banda. Destaque para os belos violões de Mick Jones.
Love On The Telephone – Head Games (1979)
Um blues rock dramático e intenso, essa música está presente no extraordinário terceiro disco da banda, intitulado Head Games, que traz entre suas faixas, clássicos indiscutíveis como a faixa título, a pedrada Dirty White Boy e Women. Com a voz de Lou Gramm esbanjando feeling, o Foreigner entregou mais uma canção poderosa e carregada de emoção.
Rev On The Red Line – Head Games (1979)
A regra era clara: ou se falava de mulheres ou se falava da estrada e de carros. O Foreigner resolveu unir os 3 temas nessa emblemática canção de refrão forte, criando um duplo sentido malicioso em seus versos. O resultado foi uma canção que reflete bem o espírito do fim da era setentista, como uma bela preparação para a sonoridade que se tornaria marca registrada da banda na década seguinte. O som é um rock básico com toque de psicodelia sem muita firula, uma canção direta ao ponto.
The Modern Day – Head Games (1979)
Riff alegrinho, bateria ritmada e clima lá em cima fazem dessa canção uma ode ao alto astral. Destaque para os belos sintetizadores que permeiam toda a música após a segunda estrofe.
Luanne – 4 (1981)
O disco que tornou o Foreigner um dos maiores nomes do aor ao lado do Journey traz muito mais do que a conhecida (e já citada) Waiting For A Girl Like You. Além de clássicos como Urgent e Juke Box Hero, Luanne é outra excelente canção que merecia mais reconhecimento. A boa notícia é que nos últimos shows, mais precisamente a partir de dezembro de 2025, a banda voltou a incluí-la em seu setlist após 40 anos de ausência. Apesar do refrão repetitivo, é uma baladinha animada e alegra, com uma vibe de curtição acima da média.
Girl On The Moon – 4 (1981)
O clima melancólico de fim de noite dá o tom aqui. Aor na veia, com dedilhados de guitarra exalando sentimento e uma letra meio confusa, como se o autor estivesse alucinando de alguma forma a procura de uma garota misteriosa que só ele enxerga.
I’m Gonna Win – 4 (1981)
Riff pesado com power chords, aqui a voz de Lou Gramm soa ameaçadora e aterrorizante nesse início. Claro que estamos falando de aor, portanto não espere peso ao extremo. Ao contrário, aqui o clima é quem manda, e nesse quesito o Foreigner consegue expressar como poucos o que deseja com suas canções. Afirmando e reafirmando “eu irei vencer” ao longo de toda a canção, a música funciona como um mantra anti depressão, algo muito válido para os dias de hoje, numa letra atemporal.
Down On Love – Agent Provocateur (1984)
A introdução de teclado faz o ouvinte pensar se tratar de alguma canção de Whitney Houston, o que nem de longe é uma crítica. O clima é de paz numa canção romântica e bela, presente nesse quinto disco de estúdio. Novamente a interpretação de Lou Gramm é um dos destaques, numa banda que joga pra canção, sem exageros sonoros nem malabarismos virtuosísticos.
Heart Turns To Stone – Inside Information (1987)
Com um clipe amplamente divulgado pela MTV na época de seu lançamento, essa pedrada caiu no esquecimento dos fãs, e da própria banda. Quase nunca tocada ao vivo, essa poderosa canção possui tudo aquilo que os fãs de hard rock oitentista amam: Teclados futuristas, riff cortante, e cozinha baixo e bateria coesa e azeitada. Lou Gramm mais uma vez dá um show de interpretação, com um desempenho arrebatador em uma das melhores e mais injustiçadas canções do grupo.
Inside Information – Inside Information (1987)
A faixa título deste estupendo disco mostra que em matéria de canções grudentas e refrões memoráveis o Foreigner seria referência para os amantes do rock de arena. Com os elementos característicos do estilo presente aqui, como sintetizadores, guitarras certeiras e baixo até certo ponto pasteurizado, criando uma ambiência charmosa para consolidar a banda como uma das maiores forças do estilo. Destaque para a bela bateria, cheia de reverb e peso.
Moment Of Truth – Unusual Heat (1991)
Um riffão que soa como uma junção de Scorpions e Def Leppard, uma letra tipicamente oitentista e como de costume, refrão arrasador. Assim é a quarta faixa do disco Unusual Heat, o primeiro sem Lou Gramm, com o talentoso Johnny Edwards o substituindo. Apesar das mudanças de formação (o baterista Dennis Elliot e o baixista Rick Wills saíram logo após as gravações), o disco traz boas canções como essa. Muitos fãs sentiram a ausência de Lou e ignoraram esse trabalho, mas essa canção é a prova de que vale muito a pena dar uma chance ao disco.
With Heaven On Our Side – The Very Best… And Beyond (1992)
Quando Johnny Edwards assumiu o vocal no lugar de Lou Gramm, o fracasso comercial fez com que Mick Jones e Lou Gramm sentassem pra conversar sobre o future da banda. O resultado foi uma coletânea, que contava com 3 faixas inéditas, dentre as quais essa belíssima balada. Típica canção arrasa quarteirão, com interpretação magistral de Lou Gramm e um clipe amplamente veiculado nas tvs especializada ao redor do mundo. Estranhamente a música parece nunca ter sido tocada ao vivo, tornando-se uma das canções ignoradas pela banda e totalmente desconhecida do grande público, apesar de incrivelmente bela.
Running the Risk – Mr. Moonlight (1995)
O fracasso comercial do disco anterior levou Mick Jones a reconsiderar trabalhar com Lou Gramm (que também viu seu superprojeto Shadow King naufragar). O resultado foi Mr. Moonlight, e essa é uma das melhores faixas já lançadas pela banda. Com um clima que remete a era clássica da banda, temperada com sonoridade oitentista, a música começa com instrumental criando suspense e vocal reflexivo de Lou. Música boa, infelizmente soterrada pela época, afinal o grunge e o alternativo ditavam as regras do mercado na época, o que levou esse bom álbum a fracassar comercialmente e passar despercebido pelos fãs. Mesmo assim, essa canção é uma pérola perdida na discografia da banda, infelizmente ignorada/desconhecida pelos fãs e pelos próprios membros do grupo.
Rain – Mr. Moonlight (1995)
O disco de 1995 traz ainda a faixa Rain, uma das mais fortes do grupo, e que funciona como um prenúncio do que viria a ser o Foreigner a partir dali. Apesar de ser uma canção marcante, não possui a sonoridade que fez a banda se tornar um ícone do aor. O som aqui é mais pop, voltado à sobrevivência musical e comercial num período difícil para os medalhões do rock. Mesmo o disco tendo fracassado comercialmente, a música em questão é verdadeira e sentimental, com bons arranjos pop e refrão acessível.
When It Comes To Love – Can’t Slow Down (2009)
Após 4 anos da entrada de Kelly Hansen, o Foreigner lançou este disco, o primeiro de inéditas desde Mr. Moonlight, além de ser o primeiro com Jeff Pilson (Dokken) no baixo. A faixa mencionada aqui foi um dos singles do disco e chegou a ficar entre as 20 mais da Billboard no ano de lançamento, porém caiu no esquecimento, sendo deixada de lado até pela própria banda após 2018, sendo tocada apenas algumas poucas vezes desde então. Com sonoridade agradável, é uma linda balada pop/hard com refrão forte e bela construção harmônica. A voz de Kelly caiu como uma luva, o que é um dos destaques dessa canção.
I’ll Be Home Tonight – Can’t Slow Down (2009)
Ainda do disco com Kelly, I’ll Be Home Tonight é uma das músicas mais fortes do disco, e uma das que mais remete ao estilo clássico da banda. Bela introdução, guitarras pontuais e o peso do baixo de Jeff Pilson dão o tom de uma das canções mais subestimadas da banda nesse período, sendo tocada raras vezes ao vivo.
The Flame Still Burns – 40: Forty Hits From Forty Years (2017)
Lançada originalmente num EP de vinil no Record Store Day em novembro de 2016, essa faixa entrou numa coletânea lançada pela banda em maio do ano seguinte, obtendo recepção moderada. Apesar disso é uma boa faixa que conta com violões belíssimos e um refrão cativante. Prova de que o Foreigner não vive apenas de seu glorioso passado.
Give My Life For Love – 40: Forty Hits From Forty Years (2017)
Lançada junto com The Flame Still Burns, essa canção é uma baladinha ainda mais obscura que lembra a vibe de In Pieces, single de Can’t Slow Down. Uma excelente música nunca tocada ao vivo, que passou despercebida principalmente pela falta de interesse da banda em promovê-la, e dos fãs, por não permitirem que uma canção desse nível visse a luz do dia como merecido. Trata-se de uma balada estilo Bon Jovi, que não faria feio num show com milhares de celulares acesos, celebrando.
