Heilung é um coletivo musical experimental formado em 2014 por membros da Dinamarca, Alemanha e Noruega, conhecido por definir sua arte como “amplified history” (história amplificada).
Seu principal núcleo musical é composto pelo alemão Kai Uwe Faust (vocais, percussão e textos), a norueguesa Maria Franz (vocais) e o dinamarquês Christopher Juul (composição, produção e instrumentos), que juntos constroem a base sonora e conceitual do projeto; além do trio principal, a banda se expande ao vivo com percussionistas e performers rituais, reforçando sua identidade como uma experiência coletiva que vai além da formação tradicional de uma banda.
O coletivo utiliza textos e inscrições históricas reais — em proto-germânico, nórdico antigo, gótico e latim — extraídos de artefatos arqueológicos, runas e registros antigos. Esses elementos são combinados com percussão tribal, cantos rituais, ossos, chifres, tambores de pele animal e outros instrumentos não convencionais. O resultado foge da ideia tradicional de música e se aproxima de uma experiência sonora ritualística, focada em ritmo, repetição e impacto físico, mais do que em melodias ou estruturas clássicas.
O projeto ganhou reconhecimento internacional com o álbum de estreia Ofnir (2015), mas foi nas apresentações ao vivo que o Heilung consolidou sua identidade artística. O registro Lifa (2017), gravado no Castlefest, tornou-se um marco ao capturar a intensidade quase xamânica de suas performances, nas quais música, visual e movimento se fundem em um único ritual coletivo. Álbuns posteriores como Futha (2019) e Drif (2022) expandiram a proposta, explorando atmosferas mais etéreas, contemplativas e narrativas, sem abandonar o peso percussivo e a força ancestral que definem a banda.
Atualmente o Heilung ocupa um espaço singular entre o metal, a música experimental e a arte performática, sendo reconhecido por desafiar limites e expectativas dentro da música pesada. No fim do ano passado, a banda anunciou que entraria em hiato, sem mais informações. Há uma legião de fãs que a banda conquistou ao longo desses anos, aguardando que esse não seja o prelúdio de um final do projeto, apenas uma pausa necessária.
Reduzir o Heilung a uma banda “viking” ou “folk ritual” é perder o essencial: a banda cria experiências sensoriais e emocionais que conectam passado e presente, corpo e mente. Cada álbum, cada faixa e cada performance são concebidos como rituais modernos, usando línguas antigas, percussão tribal, ossos, chifres e cantos arquetípicos para ativar memórias culturais e estados de consciência esquecidos. Ouvir Heilung é sentir antes de pensar. É respirar, pulsar, se mover com a música e perceber que a ancestralidade não é só história, mas experiência viva.
Para explorar essa dimensão, selecionamos algumas faixas que exemplificam o “além do óbvio” do Heilung, dividindo-as entre intensidade primal, introspecção contemplativa e experiências híbridas que unem corpo e mente:
1.Opening Ceremony – Live
Antes do início do show, há uma grande preparação entre músicos e artistas de performance alguns segundos antes eles recitam a seguinte “prece”:
“Lembre-se de que todos nós somos irmãos
Todos os povos, animais, árvores, pedras e o vento
Todos nós descendemos do único grande ser
Que sempre esteve lá
Antes de as pessoas viverem e lhe darem nome
Antes de a primeira semente germinar”
2 Krigsgaldr (Ofnir, 2015)
Introdução primal do Heilung, com vocais arquetípicos e batidas tribais, preparando o corpo e a mente para a experiência ritual completa.
3. Hamrer Hippyer (Ofnir, 2015)
Ritmo repetitivo e hipnótico que atua quase como mantra, induzindo transe e ativando a pulsação ancestral do ouvinte.
4. Norupo (Ofnir, 2015)
Combinação de vocalizações antigas e percussão tribal que cria sensação de comunidade ancestral, mais sentida do que entendida.
5. Alfadhirhaiti (Lifa, 2017)
Ao vivo, esta faixa demonstra o ritual completo do Heilung, onde espaço, corpo e músicos se harmonizam, transformando a plateia em parte do ritual.
6. Traust (Futha, 2019)
Mergulho introspectivo: atmosfera meditativa e contemplativa, conectando emoção e espiritualidade com a tradição ritual.
7. In Maidjan (Drif, 2022)
Híbrida, equilibrando intensidade tribal e narrativa melódica, mostrando a fusão entre corpo e mente na performance ritual.
8. Alfadhirhaiti (Studio Version) (Ofnir, 2015)
Versão detalhada de estúdio que revela camadas sonoras e nuances que se perdem ao vivo, ideal para escuta atenta.
9. Hamrer Hippyer (Live) (Lifa, 2017)
Demonstração do impacto físico da música ao vivo, mostrando como cada batida envolve o espaço e o público.
10. Traust (Live) (Futha, 2019)
Versão ao vivo que amplifica a sensação coletiva e sensorial, reforçando a força ritualística da música.
Bônus: Para além do Heilung
Além do Heilung, seus membros centrais mantêm trajetórias paralelas bem distintas. Christopher Juul já era conhecido na cena industrial e experimental como C. J. Bolland, produtor belga-dinamarquês com forte atuação em techno, EBM e música eletrônica desde os anos 1990, trabalhando com nomes ligados à música eletrônica underground e trilhas sonoras.
Maria Franz desenvolve um trabalho mais introspectivo e melódico no projeto Euzen, que transita entre folk, dark pop e música alternativa, explorando emoção e espiritualidade de forma mais acessível.
Já Kai Uwe Faust atua há décadas em projetos ligados à música ritual, experimental e neofolk, como The Voice of Eye, além de colaborações com artistas da cena underground europeia focadas em percussão, tradição oral e práticas rituais. Esses caminhos individuais ajudam a explicar a identidade híbrida do Heilung, onde eletrônica, folk, ritual e música extrema coexistem sem fronteiras claras.
Estivemos presentes em um dos últimos shows do Heilung em 2025, durante o festival M’era Luna, na Alemanha. Aqui você pode conferir nossa matéria e abaixo seguem algumas fotos desse evento memorável.










