ENTRE A REVOLUÇÃO CULTURAL E A FRATURA DEFINITIVA

O álbum mais popular da história do Sepultura também é, paradoxalmente, o mais divisivo. Para alguns, uma obra-prima transformadora. Para outros, uma ruptura irreversível com o metal extremo que consagrou a banda.

Um álbum nascido do confronto

Em meados dos anos 1990, o Sepultura já não era apenas uma banda brasileira de metal. Era um nome consolidado no cenário internacional. Arise (1991) e Chaos A.D. (1993) haviam elevado o grupo a um novo patamar, equilibrando agressividade, consciência política e identidade própria.

Mas o sucesso trouxe também tensões internas, desgaste criativo e visões cada vez mais divergentes sobre o futuro da banda.
É nesse contexto que Roots surge. Gravado em grande parte no Brasil e produzido por Ross Robinson, o álbum nasce de um choque deliberado de culturas: metal pesado, groove, percussão tribal e uma proposta de imersão profunda na ancestralidade brasileira. Desde o primeiro contato, ficou claro que não seria um disco neutro. Roots exige posicionamento.

A virada estética que mudou tudo

Se Chaos A.D. já flertava com grooves mais cadenciados, Roots mergulha de vez nessa abordagem. Guitarras afinadas mais graves, riffs simples e repetitivos, estruturas diretas e uma ênfase quase física no peso passam a definir a sonoridade do álbum.

Para quem vê o disco como problemático, alguns pontos são recorrentes:

O thrash e death metal técnico dos trabalhos anteriores cedem espaço a uma música mais lenta e direta.
A repetição de ideias soa, para alguns, como empobrecimento criativo, a aproximação com sonoridades que mais tarde seriam associadas ao nu metal gera rejeição entre fãs mais puristas.

Já para os defensores de Roots

O álbum redefine o conceito de peso no metal dos anos 90, a  simplicidade é uma escolha estética consciente, focada em impacto e identidade e o disco inaugura um diálogo cultural que poucas bandas de metal ousaram estabelecer.

Produção orgânica ou excessivamente crua?

Sob o comando de Ross Robinson, Roots aposta em uma produção visceral, densa e, por vezes, claustrofóbica. A bateria soa tribal e orgânica, as guitarras são secas, e o vocal de Max Cavalera assume um caráter mais primal do que técnico, esse aspecto se torna outro ponto de divisão.

Para alguns, a produção reforça o conceito do álbum e amplia sua força ritualística. Para outros, sacrifica definição e nuance em nome da sensação imediata, tornando o som irregular ou até datado sob uma escuta atual.

Ainda assim, é inegável que Roots possui uma identidade sonora própria e imediatamente reconhecível, algo raro mesmo entre álbuns clássicos.

Faixas que dividem o público

Poucos discos do Sepultura apresentam contrastes tão claros na recepção de suas músicas.

Entre as mais celebradas estão:

Roots Bloody Roots, um hino absoluto, direto e impossível de ignorar
Ratamahatta, ousada, festiva e símbolo máximo da fusão cultural proposta
Attitude, curta, explosiva e carregada de tensão.

Entre as mais contestadas:

Cut-Throat e Born Stubborn, criticadas pela estrutura excessivamente repetitiva
Endangered Species, vista como uma quebra brusca de ritmo.
Itsári, interpretada ora como imersão cultural legítima, ora como excesso conceitual.

O peso simbólico da ruptura

Com o tempo, Roots deixou de ser apenas um álbum controverso para se tornar um marco definitivo na história do Sepultura. Foi o último trabalho da banda com Max Cavalera, antecedendo uma separação traumática que redefiniu seus rumos.

Essa ruptura ampliou ainda mais o debate em torno do disco. Para alguns, Roots representa o auge criativo e identitário do grupo. Para outros, marca o início de um afastamento irreversível do metal extremo que havia consagrado a banda.

Reavaliações ao longo do tempo

Décadas depois, Roots segue sendo revisitado, reavaliado e rediscutido. O que antes parecia uma ruptura agressiva passou a ser visto, por muitos, como um movimento visionário. Sua influência é perceptível em diversas vertentes do metal moderno, especialmente na valorização do groove e da identidade cultural.
Ainda assim, o álbum continua dividindo opiniões. Talvez porque nunca tenha se proposto a agradar a todos.

Conclusão

Roots é um disco que incomoda, provoca e transforma. Ele rompe expectativas, desafia tradições e se recusa a ser confortável. Pode ser visto como uma obra-prima cultural e musical ou como uma escolha que custou caro à identidade do Sepultura.

Bom ou bomba?

A resposta depende menos do álbum em si e mais da relação de cada ouvinte com mudança, risco e reinvenção. O que não se pode negar é seu impacto duradouro e sua capacidade de gerar debate mesmo após tantos anos, e para mim, Roots do Sepultura é um BOM DISCO.

Ficha técnica

Álbum: Roots
Artista: Sepultura
Lançamento: 20 de fevereiro de 1996
Gravação: Brasil e Estados Unidos (1995–1996)
Gênero: Groove metal / Thrash metal / Metal alternativo
Duração: 73:45
Gravadora: Roadrunner Records
Produção: Ross Robinson

Formação
:

Max Cavalera – vocais e guitarras
Andreas Kisser – guitarras
Paulo Jr. – baixo
Igor Cavalera – bateria

Por: Cintia Seidel para o Headbangers Brasil