O projeto FIDAIONICE constrói uma estética singular ao transformar o cotidiano em narrativa sensível e inquietante. Entre memórias e espaços, suas composições evocam aquilo que normalmente passa despercebido mas nunca deixa de existir.
Numa bela tarde de domingo eu via stories aleatórios no Instagram e me deparei com um que tinha a música “Se o Coreto da Praça Falasse”. Voltei, mandei mensagem ao meu amigo comentando que havia adorado o som, afinal, nem só de Black Metal vive a Opus Mortis né. Viciei, mostrei pra uma galera e, por muito pouco, o disco Conversa Fiada não fez parte dos meus Melhores de 2025 na HBR.
HBr: O nome “Fidaionice” chama atenção pela sonoridade e singularidade. Como ele surgiu e o que representa para você?
Fidaionice: Olá, bom dia, boa tarde ou boa noite. É um prazer tá aqui sendo entrevistado por você, Opus Mortis. Muito significativo pra mim essa entrevista, até porque minha vida artística começou no metal, e querendo ou não, a gente carrega todas essas influências pra vida inteira, né.
Eu sou do interior de Minas, mais precisamente da cidade de Iguatama. Essa cidade tem aproximadamente uns 5 mil habitantes, então, todo mundo conhece os fi de alguém né, kkkkkk. Nesse caso eu sou o fidaionice, com muito orgulho dessa mãezona.
Comecei a usar esse nome socialmente antes mesmo de lançar meu primeiro trabalho artístico, usava como a minha URL nas redes sociais, aí quando fui lançar meu primeiro trampo solo, só aproveitei mesmo esse nome que acho massa kkkkk.
A ideia de usar veio de uma lembrança, de uma certa vez lá nas adolescência, que eu e uns amigos fomos pular um muro de uma casa em construção, por pura curiosidade, pois era uma casona kkkk, e ai os vizinhos chamaram a polícia, nisso vazamos de lá correndo mesmo, na tora e a polícia alcançou a gente. Aí chegando lá a vizinha puxa saco dos rico falou, alá ó, sabia que era o fidaionice, a cara dele, conheço ele desde minino kkkkkk. Daí resolvi usar esse nome socialmente e artisticamente.
HBr: Você enxerga o projeto ou banda como uma persona artística ou como uma extensão direta de si mesmo?
Fidaionice: Com toda certeza é uma extensão de mim mesmo, da minha vida, dos trem que faço e etc.
Acho que não tem como ser sincero artisticamente se eu não for eu mesmo.
HBr: Existe um conceito central que conecta seus trabalhos ou cada lançamento segue um fluxo próprio?
Fidaionice: Então, esse trampo solo meu surgiu após a banda na qual eu fazia parte acabar. No caso a galera foi desanimando e ainda juntou as depressão da pandemia, aí acabou tudo. Mas nessa banda, a gente fazia música autoral com essa ideia de escrever e cantar as músicas assim com nosso sotaque mesmo, esse sotaque carregado do interior mineiro.
Assim que a banda acabou, eu senti que deveria continuar fazendo música autoral, porque no fundo é o que gosto de fazer mesmo. Acho que é uma forma de validar minha existência e a existência de quem gosto, de quem convive comigo e etc.
Aí quis manter esse conceito, de sei lá, orgulhar dessa caipirice e colocar isso nas músicas.
Outra coisa que curto, é misturar as influências que tive e tenho durante a vida. Aí eu chamo esse conceito de fulerage kkkk. É um jeito que arrumei de tirar o peso pejorativo dessa palavra e tornar algo positivo, porque sempre gravamos e tocamos em condições extremamente precárias, e mesmo sendo um trabalho feito na fulerage, que era o que a gente podia, era um trabalho feito com carinho e autenticidade.
Então, acho que o conceito é esse, misturar influências e falar do que achar massa, do jeito que se fala mesmo.
HBr: Seu trabalho transforma elementos cotidianos em algo quase simbólico. Como nasce uma música dentro do Fidaionice?
Fidaionice: Massa demais essa pergunta. Um trem que sempre falo é que todo mundo tem algo a dizer na vida, todo mundo tem vontade de conversar com outra pessoa e etc. Então todo mundo tem algo pra falar né, nem que seja falar de uma pedra que cê tropeçou e o dedo ficou doendo kkkkkk.
Falar do cotidiano, da sua vivência é validar sua vida né. Já que ele ta presente ai mesmo todo dia.
Particularmente falando, acho que falar de coisa séria ou bonita o tempo inteiro, te torna chato, mano. Como se a vida fosse só isso. Tipo, tu não tem um momento de lazer com seus amigos não? E por que não falar disso né?
Teve uma vez que perdi meu brinco, um brinquim mais bunitim que tinha acabado de comprar. Aí comecei a cantarolar assim, “eu só queria achar meu brinco que sumiu” kkkkk daí já surgiu uma música.
E é isso véi, falar do cotidiano é validar a vida uai, a gente num vive só coisa bonita não, quem dera. Falar bobagem também faz parte dessa vida nossa. E acho que ninguém e nenhuma vida é especial não. Tudo mesma coisa, se achar especial demais faz cê desanimar das coisas por achar que tudo tem que ser perfeito sei lá.
HBr: Você parte mais da palavra, do som ou de sensações/imagens ao compor?
Fidaionice: Assim, na maioria das vezes ou quase sempre, eu parto do som mesmo. Geralmente quando eu pego pra tocar guitarra ou violão, já to criando algo novo assim, que eu acho que vai dar uma música massa, ou mesmo só de onda mesmo.
Daí se rolar já vira uma música mesmo, que aí lembro de alguma história ou coisa que fiz, ou que fizeram e me contaram, e já escrevo uma letra.
Mas também rola de escrever uma coisa antes de pensar no som, como falei do brinco ai em cima, e até da musica do coreto, que foi um pensamento que veio um dia bebendo e conversando com meus amigos na praça, que tipo, todo mundo já viveu uma história no coreto, né. Em vários momentos da vida.
HBr: O cotidiano na sua obra carrega uma carga emocional intensa. Isso é planejado ou espontâneo?
Fidaionice: Ou, pra falar verdade é um pouco dos dois. Tipo, como já é algo normal pra mim falar da vida e das coisas que acontecem, já meio que fica espontâneo. Mas, ao mesmo tempo, é algo planejado, porque como disse aí pra cima, é uma coisa que carrego comigo como objetivo mesmo, de validar essa vida que tenho e de quem vive comigo.
E meio que virou um hábito entre meus amigos pedirem pra fazer uma música sobre algum fato que a gente acabou de viver e etc.
Um exemplo foi quando um amigo meu tava na tristeza pós relacionamento e começou a falar, “ou véi, é no frio que a saudade bate né”. Aí ele só falou, “o Igão, faz uma música dessa ai pra nois”, ai fui lá e fiz mesmo kkkkk.
HBr: Quais foram as principais influências na construção da sua sonoridade?
Fidaionice: Isso é muito massa e difícil de classificar, porque considero influência tudo que escuto e gosto, e às vezes o que nem gosto também kkkkk.
Eu comecei tocando metal, né. Minha adolescência foi tocando metal, mas eu não tinha amigos metaleiros lá naquela roça, então eu escutava de tudo com eles, e por consequência, também acabava tocando essas músicas que curtíamos juntos na guitarra. Sempre tive facilidade em tirar música de ouvido, até errado kkkkk.
Aí véi, sei lá, do nada depois de tocar um Black Sabbath, eu tocava um mc Marcinho. E eu curtia muito a música catucar, e às vezes misturava esses funks com guitarra e achava massa.
Aí quando me mudei pra Mariana, pra estudar, acabei fazendo parte de uma banda que chamava Esfíncter, e nessa banda a gente tinha essa onda de tocar música brasileira com nossa cara, misturando funk, rap, baião, indie com essa fulerage toda, e a galera curtia isso. Esse role foi em 2018, daí deu aquela sacada, de querer misturar essas influências da vida no meu som, porque aí estaria materializando minha vida em som, sei lá, parece viagem mas é isso.
HBr: Há uma densidade emocional presente na sua música. Você se identifica com essa estética mais sombria como o Metal, por exemplo?
Fidaionice: Sim sim. Como eu disse antes, o metal fez parte da minha formação musical e cultural né, então essa densidade é presente não só nas letras, mas no próprio som também.
Eu posso dizer que sou uma pessoa que curte a tristeza. Ao invés de sair atropelando esse sentimento, como se não existisse e fizesse parte da vida, eu deixo curtindo e remoendo o porque estou assim pra tentar não cair mais nesse tipo de sensação que me levou pro buraco.
Acho que o sentimento e a sensação, são sentimentos válidos que cê tem que aproveitar de alguma forma, sendo ruim ou bom.
A gente tem que se conformar e inconformar com a tristeza mesmo, até porque tem trem que nem é nossa culpa. Tipo, eu sei que nunca vou conseguir ir nos lugar mais bonito desse mundo, que é um trem que eu queria muito, porque nunca vou ter condição pra isso. Um ou outro talvez um dia, mas nessa situação minha tá difícil. Só essa semana fiz umas 3 entrevistas de emprego e todas deram errado kkkkk pelo menos é material pra falar em algum outro álbum ai pra frente kkkk.
HBr: Como você definiria o som do Fidaionice para quem ainda não conhece?
Fidaionice: Fulerage kkkkkk. A fulerage é isso, você experimentar, fazer seu próprio som, imprimir você no som, o que cê sente. Validar sua vida e as vidas de quem você gosta. A fulerage é cê fazer uma música com riff pesado de guitarra, botar várias e várias camadas de distorção em cima de uma base de funk. É você chamar alguém pra fazer um som com você, mesmo que essa pessoa não tenha experiência nenhuma com palco, com escrita, com instrumento, mas que chegue numa vontade que o trem acontece. Já rolou, ano passado inclusive, de um cara aprender a tocar triângulo na quarta feira, pra gente fazer o show na sexta, e foi massa.
Então é isso, fidaionice é fulerage, e a fulerage é democrática.
HBr: Trabalhos como “Criado Com Vó” trazem memória e afetividade de forma marcante. Qual o papel da memória na sua arte?

Fidaionice: Ixe mano. Acho que tudo né. Toda essa vivência e vontade de materializar o cotidiano, a vida, as histórias, vem dessas memórias afetivas.
Minha vó foi uma das pessoas mais importantes da minha vida, né. Eu literalmente fui criado com vó, já que minha mãe trabalhava. Minha primeira banda ensaiava lá no galinheiro da casa da minha vó. Meus melhores amigos eu conheci e me aproximei quando fui morar com minha avó mais tarde já na adolescência.
Além disso tudo, minha avó me influenciou bastante na forma de contar histórias, de dar importância pra vivência do dia a dia.
Mesmo sem saber tocar um instrumento sequer, sinto que minha maior influência na arte é minha avó.
Então, desde que lancei meu primeiro álbum solo, lá em 2022, busco valorizar essas memórias e vivências.
Um exemplo é a música Vira Vento, que foi a primeira música que compus pra esse álbum. Essa música fala da primeira vez que minha vó me levou pra benzer, isso eu tinha uns 3 anos. Lembro direitim da benzedeira me pegando e virando de cabeça pra baixo, falando que eu tava com o vento virado kkkkk. “Ela me pegô, me virô me balançô, eu chorei minha vó chamô e me falô… não chora não, que agora cê tá bão. kkkkkk
Até hoje essa é a música da vó. O Igo, toca a música da vó.
HBr: Em faixas como “Se o Coreto da Praça Falasse”, há uma sensação de dar voz a espaços e estruturas do cotidiano. O que te inspira a transformar esses lugares em narrativa?
Fidaionice: A vida. Todo mundo já viveu uma história no coreto. Todo dia o coreto tá lá na praça recebendo diversas pessoas, desde recém nascidos até idosos. Os coretos das cidades já viram cada coisa nessa vida. Se o coreto da praça falasse, ele seria a maior testemunha que a vida tá ai, por mais insignificante que seja, ela tá ai. Por pior que seja, alguém ainda gosta de você, alguém lembra da sua existência, alguém gostou de viver e dividir o tempo dela contigo ao menos uma vez e o coreto é a prova disso. Se não tem alguém que lembre de você, é porque infelizmente essa pessoa já morreu, O mundo é isso né. A vida é isso né. O cotidiano.
HBr: Fala pra gente como é trabalhar de forma independente criando seu som?
Fidaionice: É massa viu, poder colocar minhas influências todas num som. Assim, o meu primeiro álbum, que ta fazendo 4 anos essa semana kkkkk foi o mais divertido de criar, porque foi tão natural que saiu assim simples e real. Se você escutar O Que Sobrou do Restim, é a mesma coisa de tá conversando ou dando um rolê comigo. Tudo que eu sou tá ali. Eu gosto de dançar na feiura, eu gosto de andar de bike com meus amigos, eu sinto um aperto de não ter dar aquele último abraço, pô, sinto satisfação demais de uma amiga da escola, que nunca tinha cantado na vida, a não ser de zueira lá nas educação física ter cantado na faixa de abertura. Essa vontade de misturar ritmos e que eu tanto falava com minha banda pra gente tentar, já não sinto mais, porque fiz nesse álbum e em todo meu trampo. É um álbum que assim, ta aí, esse é o fidaionice. E é o preferido dos meus amigos até hoje.
E assim, eu gravo tudo em casa, tudo no quarto. O que mais me impedia de fazer meu som era cantar e mixar. Eu nunca tinha cantado na vida antes desse álbum, mas senti que se não fosse eu, ninguém ia querer cantar sobre perder um brinco bobo kkkkkkk. E a mesma coisa eu posso falar da mixagem. Esse serviço de mixagem é caro demais, então aproveitei a pandemia que pude ficar em casa, pra estudar mixagem no youtube mesmo. Tem vários canais de produção que ensinam e dão dicas. E o resto cê vai na intuição e bora. Negócio é não ter vergonha do que cê faz. De quem é você e de onde cê vem.
HBr: Quais são os maiores desafios de manter um projeto autoral hoje? Onde podemos ouvir e acompanhar o Fidaionice?
Fidaionice: A falta de investimento e a desesperança. Faço meu som porque gosto mesmo, mas a falta de grana pra fazer um trerm bem feito desanima. Aí junta que cê num consegue um emprego, junta que cê num consegue fazer dois shows no ano, porque ninguém sei lá, quer ir no show do fidaionice e os fidamãe kkkkk. Isso é desanimador demais. Cê vê a galera tocando direto ai as mesmas coisas, ano após ano e cê tem espaço pra quase nada.
O bão é que mesmo assim, tem gente que ainda conhece o som e agrada, não sei como, porque não faço anúncio nem campanha de tráfego pago, é tudo na boa vontade de tá fazendo mesmo.
Pra escutar meu som é só pesquisar fidaionice na sua plataforma de streaming preferida. Vou disponibilizar no drive também pra download. Esqueço de fazer isso, mas é isso. Tá aí nas internet todos meus álbuns.
HBr: O que podemos esperar do futuro do Fida Ionice com novos lançamentos, mudanças sonoras ou outras formas de expressão?
Fidaionice: Uai, eu to tentando editais de cultura ai pra ver se consigo financiar um álbum com mais qualidade e pra me ajudar financeiramente também kkkkk. Mas pode esperar essa autenticidade já característica do meu som, essa fulerage, essa valorização da vida, das trocas, do dia a dia.
Recentemente tenho tocado com uma formação de zabumba, triangulo, pandeiro, guitarra e baixo e tenho gostado dessa experiência. Acho que vamos tentar imprimir mais disso no próximo álbum. E esse próximo álbum vai existir com ou sem financiamento de edital. Eu nunca deixei de fazer minhas coisas, de lançar minhas músicas por falta de renda, e não vai ser isso que vai me barrar agora. Talvez vá atrasar, mas barrar não kkkkkk
HBr: Chegamos ao final da entrevista e a palavra é sua. Deixe um recado pra galera que vai conhecer o Fidaionice.
Fidaionice: Primeiramente, eu fico extremamente feliz de ter tido essa oportunidade de estar sendo entrevistado por você, Opus Mortis, que é de um público que eu realmente não esperava que fosse se sentir representado com meu som. Fico extremamente grato por isso, e por estar falando com a galera do metal, que é onde comecei, e que ainda carrego fortes influências. Não posso chamar meu som de metal, é até um crime isso kkkkkk mas não posso negar as influências.
Espero que se alguém escutar minhas músicas, que goste de verdade. Que se sinta representado de alguma forma. Que traga lembranças boas de pessoas e momentos que fizeram parte da sua vida.
E é isso, véi, faz seus trem. Faz suas músicas, seus corre, qualquer coisa que cê tenha vontade e possibilidade de fazer. Deixa pra depois não que cê pode ir de arrasta aí qualquer hora.
Eu tive oportunidade de fazer, fiz. Se você tiver como, se tiver acesso, faz também.
O mundo tá precisando de arte.
Vamo fazer arte.
Vamo tentar valorizar nossa insignificância kkkkk
Um abraço pra você que leu essa entrevista. Espero que goste do meu som.
