Quando três veteranos da pesada cena mineira se unem, o resultado não poderia ser outro senão uma avalanche sonora. Formada por nomes que ajudaram a construir a história do metal em Minas Gerais, com passagens por bandas icônicas como Concreto e Witchhammer, a banda mineira Loss vem provando que o formato power trio ainda é a unidade mais potente do rock.
A Loss não é apenas um novo projeto, mas a consolidação de décadas de estrada. Em meio ao lançamento de seu mais recente trabalho, conversamos com Teddy Bronsk sobre o “Fator Humano” por trás do power trio e os rumos do rock autoral hoje. Confiram a entrevista abaixo.

HBr: A Loss foi fundada em 2020, no meio do caos pandêmico que estávamos vivendo naquele ano. Qual foi a motivação de vocês para montarem a banda num momento tão caótico?
Teddy Bronsk: Bom, a Loss foi fundada pelo Marcelo e pelo Edu Megale, que hoje toca no The Mist. E, em princípio, era só gravar umas músicas, né? O Marcelo me chamou pra gravar as quatro músicas, que são do primeiro EP, o EP Let’s Go. Até então era só isso, e pra fazer alguma coisa também, né, na pandemia, porque ficar preso em casa sem fazer nada é muito ruim e a música faz falta, né? Mas ela foi fundada assim, em princípio, só pra gravar as quatro músicas e boa. Mas aí começaram a aparecer os convites de live, o pessoal começou a gostar, e aí a gente foi. Tá aí até hoje.
HBr: A Loss já nasceu com músicos experientes, que passaram em bandas como Witchhammer e Concreto. Vocês sentem que a banda surgiu como continuidade natural das trajetórias anteriores ou como um recomeço absoluto?
Teddy Bronsk: Ô, Hector, acho que são às duas coisas, cara, entendeu? Acho que a nossa experiência na música, no metal, né? Eu participei do movimento dos anos 80, com o Witchhammer, quando estava surgindo o metal no Brasil, né? E toda a minha bagagem, é claro, que ela vale para montar o Loss. O Marcelo tem a experiência dele com o Concreto, o Adriano teve o Caixa Acústica, então a experiência que a gente teve, a gente aplica no Loss. Porém, o Loss é uma banda nova, que vai fazer, se eu não me engano, seis anos, agora em abril. Então, assim, às duas coisas, né? Valeu a carga de experiência que todos nós três tivemos na nossa vida musical, para poder aplicar no Loss, e então tornar o Loss uma banda grande, de sucesso, que a nossa intenção é essa, então, são às duas coisas.
HBr: Logo em seu ano de formação, a Loss lançou o EP “Let’s Go”, com quatro faixas autorais. Como foi o processo criativo e de composição em meio a uma pandemia?
Teddy Bronsk: Cara, isso foi uma das coisas mais espetaculares que eu vivi na minha vida de músico, porque a gente não podia se encontrar no começo da pandemia, estava pesado, e eles(Marcelo e Edu) me mandavam às bases por WhatsApp, com metrônomo, eu imaginava a bateria aqui como poderia ser e ia para o estúdio(a gente só encontrava para ir para o estúdio), para poder gravar no estúdio. E aí os caras ficavam sabendo das minhas baterias lá no estúdio. E foi assim. Foi muito legal a experiência de gravar sem ensaiar, é um know-how que eu acho que poucos músicos conseguem ter, e a gente teve isso. O Megale e o Marcelo faziam às músicas, mandavam tudo prontinho com o metrônomo, eu criava a bateria, e os caras só iam ver lá na hora, foi muito legal.

HBr: A sonoridade da Loss mistura peso com uma abordagem moderna. Em muitos sites e streamings vejo que o gênero apontado a vocês é o Hard Rock e o Stoner Rock. Vocês sentem esse Stoner Rock na banda e nas músicas de vocês ou acham que é só uma adaptação dos sites de streamings?
Teddy Bronsk: Hector, eu nem sabia o que era Stoner Rock. Nem eu, nem o Marcelo, nem o Adriano. A gente foi pesquisar e aí, estava escrito lá nas primeiras frases: “Banda altamente influenciada por Black Sabbath”, aí papapá, popopô, a gente falou assim: “Ah, então tá! Então é isso, né?” Porque pra mim, cara, é heavy metal. Pra mim tudo é heavy metal! Eu cansei desse negócio de rótulo, thrash metal, speed metal, black metal, death metal, puta que o pariu metal… Pra mim é tudo heavy metal.
HBr: O primeiro álbum completo da banda, “Storm”, foi lançado em 2022 e marcou a entrada da Loss em mercados internacionais, com distribuição pela gravadora DyMM Records que tem sedes em Londres e Lisboa. Ano também que vocês fizeram sua primeira tournee europeia passando por cidades da Península Ibérica. Esse lançamento com distribuição pela DyMM foi uma estratégia para venda de shows pela Europa? Falem um pouco sobre isso.
Teddy Bronsk: Sim, essa parceria que a gente teve com a DyMM Records foi muito importante, né? Foi a porta de entrada do Loss. Por ser uma banda nova, a gente tinha dois anos em 2022 e já com quatro datas marcadas em Portugal e na Espanha. Para nós foi muito importante sim a parceria que a gente teve com a DyMM. Então, se a gente hoje tem um público na Europa, igual a gente percebeu agora, quando nós fomos agora em 2025, pra turnê do Human Factor, eu acho que tem muita… como é que eu vou falar? Tem muita influência da DyMM Records, ela foi muito importante pro Loss.
HBr: Como funciona a dinâmica de composição dentro da banda? Existe um líder criativo ou tudo é construído de forma coletiva?
Teddy Bronsk: Ah, varia, né? Às vezes o Adriano faz os riffs e eu e o Marcelo só encaixamos o baixo e a bateria, às vezes é o Marcelo que faz os riffs, passa para o Adriano, mas são sempre eles primeiro. Eles são os criadores, eu só recebo o material pronto com metrônomo e vou estudar a música e botar minha bateria, depois eu vou para o estúdio e apresento para os caras, aí os caras dão a opinião que acham que tá muito isso, tá menos aquilo, você pode tirar essa parte aqui… a gente vai conversando no estúdio. Mas a criação mesmo é o Marcelo e o Adriano. Eu só pego às músicas já com letra, com vocal, com guitarra, com baixo e metrônomo e aí eu ponho às baterias.
HBr: O fato de serem um power trio influencia nas decisões de arranjo?
Teddy Bronsk: Claro que sim! Um baixista de trio não pode ser um baixista comum e um guitarrista de trio também não. O cara tem que ser muito criativo para ao vivo não ficar aquela coisa de que está faltando coisa, entendeu? A gente tem que pensar muito nisso. Então é claro que por ser trio é diferente, as composições são diferentes, né? Acho que a composição do baixo tem que ser um baixão mais nervoso, mais roncador. A guitarra tem que saber preencher os espaços vazios de um possível riff, então influencia sim na composição.
HBr: O último álbum, Human Factor parece trazer um peso emocional mais denso. Vocês enxergam esse álbum como um retrato mais maduro da banda?
Teddy Bronsk: Sim, apesar da banda ser nova, igual eu já disse aí nas perguntas anteriores, a gente teve muita experiência em pouco espaço de tempo. Do lançamento do “Let’s Go” em 2020 para o lançamento do “Human Factor” em 2024. Então, tem influência emocional exatamente dessas experiências que a gente foi passando. E a gente vai descobrindo as coisas também no nosso estúdio. O Adriano é um estudioso de IA, de aplicativo e software de gravação. Ele mexe muito com às coisas. A gente agora também tem um engenheiro de som que ajuda a gente também. Então, tem essa carga emocional da experiência que a gente viveu apesar da banda ser nova.
HBr: O que mudou da Loss do primeiro EP para a Loss atual?
Teddy Bronsk: Eu acho que é um amadurecimento de nós três como um grupo. Cada um com a sua especialidade e se desenvolvendo cada vez mais. E ainda tem coisas para fazer. A gente ainda tem coisa para melhorar, nós temos umas ideias novas. Então, eu acho que é um amadurecimento como grupo, desde o Let’s Go até agora, igual falei na pergunta anterior, isso deu a gente muita experiência para poder… é muita coisa vivida em um espaço pequeno de tempo. Então, isso reflete, sim, nas composições e nos discos.
HBr: Human Factor. O título desse álbum diz respeito às falhas, às vulnerabilidades, à resistência, a o quê?
Teddy Bronsk: Bom, chegamos num nível de desenvolvimento tecnológico que tudo hoje a gente depende da máquina para fazer. A gente não datilografa mais. Agora é tudo pelo computador, os diários escolares que eu uso não são mais de papel, é computador, a medicina está usando máquina… então, assim, às fábricas estão usando máquinas, os telefones celulares que eu costumo falar para os meus alunos que, eu considero a praga moderna, porque ele causa acidentes de trânsito, ele atrapalha os outros dentro do ônibus quando uma pessoa não tem educação em usá-lo; ficam ouvindo aqueles áudios escandalosos… então, “Human Factor” fala da nossa relação com a máquina. Se é a gente que usa a máquina ou se é a máquina que usa a gente, que aí é que está o perigo.
HBr: Vocês sentem que ainda estão construindo a identidade da banda ou ela já está consolidada?
Teddy Bronsk: Bom, na minha opinião, ainda está em construção essa identidade. Eu acho que ela vai no caminho da diversidade, porque inclusive os nossos produtores hoje, o pessoal do Som do Dharma, o Eliton Tomasi e a Suzy, eles falam para a gente que o Loss se encaixa em qualquer evento de metal, porque a gente tem os vários estilos de metal, a gente passa por todos os estilos. Eu acho que essa é uma da parte da nossa identidade, é a diversidade, a gente não fica preso só a um estilo de metal, mas ainda estamos em construção.
HBr: Agora, em 2025, a banda realizou sua segunda tourneè pelo continente europeu. Tocaram em Paris, Londres, Amsterdã, cidades na Bélgica, Alemanha e Irlanda. Passaram por casas de shows históricas como o Cart ‘n’ Horses e o La Java. Como foi a experiência da segunda tour? Houve algo de diferente em comparação com a primeira tour? Soou como mais uma conquista ou só mais um capítulo natural da história?
Teddy Bronsk: Bom, essa tour, claro, na minha opinião, foi a primeira tour de verdade que a gente fez mesmo, com sete shows em seis países, viajando na Europa toda, e feita pelo booking do Som do Dharma. A gente teve que cumprir horário certinho, tudo certinho, então eu considero a primeira grande turnê, até na minha carreira como baterista, e foi uma experiência ótima, inclusive nós vamos lançar esse ano o ao vivo em Londres, lá no Cart ‘n’ Horses. Vai sair aí! Então assim, a gente trouxe muito material, tem muita coisa pra gente lançar, então eu considero uma grande turnê feita pelo Loss.
HBr: Existe diferença real entre o público europeu e o brasileiro quando falamos de bandas underground? Oque mais chamou atenção fora do Brasil?
Teddy Bronsk: Cara, a gente está acostumado com o público de BH, com o público de São Paulo, do Rio de Janeiro, Curitiba, interior de Minas e por aí vai. Que a galera agita mesmo pra caralho no show e sai todo mundo suado, na Europa, nem tanto. Principalmente em Paris, que eu achei muito frio, o contato com o público, bem distante. E o Londrino, já é frio por natureza. Mas, apesar disso, a gente teve um bom tratamento lá no Cart ‘n’ Horses. Depois que a gente tocou, que os caras viram o nível da banda, aí o tratamento mudou. Mas na Alemanha foi muito legal, na Bélgica o público foi muito legal, também. Então, depende dos lugares, igual depende dos lugares aqui no Brasil também.
HBr: Houve algum momento na tourneè que fizeram vocês pensarem: “Puts! Valeu a pena insistir todos esses anos”?
Teddy Bronsk: Bom, eu pelo menos, em todos os momentos, Hector, desde a construção da turnê com o som do Dharma até a volta para o Brasil, em todo momento eu pensava: “Olha o que eu estou fazendo. Onde é que eu estou?” e isso influenciava demais a minha performance nos palcos. Então, é assim… Valeu a pena!
HBr: Belo Horizonte sempre foi celeiro de bandas extremas. Como vocês enxergam a cena atual comparada à que vocês ajudaram a construir? E, onde vocês acreditam que a Loss se encaixa dentro desse cenário?
Teddy Bronsk: Cara, novamente a diversidade de estilos de bandas que Belo Horizonte tem hoje. Não que não tivesse naquela época, mas aquela época era mais limitada ao death metal, ao thrash metal, né? Tirando algumas outras bandas, mas a maioria esmagadora era banda de death metal, thrash metal, black metal. Hoje não, hoje Belo Horizonte tem praticamente todos os estilos desde o hard rock ao extremo e só banda boa. Então eu acho que a cena de Belo Horizonte é muito boa nessa questão da diversidade de estilos de metal que tem.
HBr: Hoje é mais difícil manter uma banda ativa do que nos anos 80 e 90? O que mudou na prática?
Teddy Bronsk: Eu acho que hoje, com o nosso amadurecimento, o envelhecimento, vamos dizer assim, todos nós temos famílias, temos empregos, e isso aí influencia no fim de semana de ensaio. A gente ensaia nos fins de semana, só quando tem uma coisa importante para fazer. Quando o tempo está pequeno, a gente faz um ensaio durante a semana. Naquela época, dos anos 80, nós éramos tudo guri vagabundo, velho. Então a gente ficava o dia inteiro por conta de tocar e fazer música. Hoje não, hoje a gente tem que dividir a banda com a vida pessoal de cada um.

HBr: O que o público pode esperar da banda nos próximos anos?
Teddy Bronsk: Bom, pode esperar muito sangue no zóio para poder fazer um heavy metal bem feito, para poder agradar todo mundo, mas não tem jeito de agradar todo mundo. Mas uma coisa honesta que o pessoal vê que a gente faz, porque aquilo que sai do nosso interior, da nossa mente, do nosso coração, eles podem esperar que tudo que fizermos vai ser com o coração.
HBr: Se a Loss fosse um momento da vida de vocês, qual seria: juventude rebelde, maturidade consciente ou resistência persistente?
Teddy Bronsk: Bom, penso que seria maturidade consciente. Eu acho que tudo o que eu falei nas outras perguntas cai muito bem nessa maturidade consciente.
HBr: 20. Quando a história da Loss for contada no futuro, qual legado vocês gostariam que fosse associado ao nome da banda?
Teddy Bronsk: Eu creio que seja a honestidade para fazer um som, a simplicidade para construir uma música, eu penso que seria isso. Uma banda que faz um som honesto, simples e com o coração, verdadeiro, sem ficar pensando: “Ah! Vou fazer essa música aqui porque fulano, beltrano gosta. Vou fazer essa música aqui porque está na onda esse estilo…” Isso o Loss nunca vai fazer. A gente sempre vai seguir o nosso coração. Então, eu acho que, eu espero que no futuro, eles entendam essa mensagem da honestidade, da simplicidade e da pureza do coração de fazer música.
Gostaria de agradecer vocês por cederem esse tempo para uma entrevista com a Headbangers Brasil. Muito obrigado e vida longa a Loss!

