No dia 28 de março, o Caverna Rock Pub foi um portal para os anos 90 e o som mais obscuro dessa década. Um daqueles raros momentos em que o tempo deixa de ser linear e se dobra sobre si mesmo, trazendo à tona memórias, dores e devoções que jamais se dissiparam.
Assistir ao ritual sonoro da banda Nargaroth em território brasileiro é, por si só, uma experiência carregada de significado, e, naquela noite, houve algo além da música. Houve a essência profunda não apenas dos músicos, mas de tudo aquilo que eles evocam em quem carrega o Black Metal como cicatriz e identidade.
Desde os primeiros acordes, a atmosfera no Caverna era densa, quase palpável. As composições, marcadas por melancolia, niilismo e introspecção, ecoaram como lamentos antigos que para muitos ali, funcionaram como gatilhos de memória.

O Black Metal, quando vivido de forma autêntica, nunca é apenas estética e se torna vínculo, memória, histórias, trajetórias… Nesse vínculo que a noite se revelou profundamente pessoal.
Entre uma música e outra, não eram apenas riffs que atravessavam o ambiente mas profundas lembranças, rostos que já não estão mais aqui, vidas e vozes silenciadas pelo tempo. Pessoas que, em algum momento da vida, apresentaram aquelas canções, dividiram fones de ouvido, noites, dores e descobertas.
Assistir ao show do Nargaroth foi, para muitos, reencontrar esses espectros. E eu me incluo profundamente nisso. Impossível não lembrar daqueles que partiram de forma trágica e que um dia dividiram Nargaroth comigo. Porém, curiosamente, não houve tristeza pura e sim saudade , muita saudade.
Houve um momento em que tudo transbordou. Quando os primeiros acordes de Seven Tears Are Flowing to the River ecoaram pelo ambiente, o tempo simplesmente cessou. Ali foi o ápice da minha noite não apenas musicalmente, mas da alma. Essa canção, carregada de dor, contemplação, abriu uma fenda emocional impossível de ignorar. Cada nota parecia arrastar consigo fragmentos de memória, cada verso ressoava como um lamento íntimo, quase confessional. Foi impossível não revisitar perdas, não sentir a presença daqueles que já partiram, mas que permanecem vivos nas trilhas sonoras que ajudaram a moldar quem somos. Ali, a música deixou de ser externa. Ela passou a acontecer por dentro.
E se havia um demônio naquele palco, ele atendia pelo nome de Pawel Pavulom. Sua performance foi simplesmente devastadora. Não se tratava apenas de técnica, embora ela esteja ali impecável, mas de presença. Pavulom não toca bateria: ele destrói.
Cada blast beat soava como um ataque, cada virada como uma ruptura no tecido da própria realidade sonora. Havia fúria, havia controle, havia caos disciplinado. Em muitos momentos, seus movimentos beiravam o transe.
Como se não fosse mais um músico executando composições, mas uma entidade canalizando violência rítmica com propósito e consciência. É impossível não afirmar: Pavulom é, sem exagero, um dos maiores bateristas do Black Metal na atualidade.

Se Pavulom era o demônio, René Wagner era o condutor desse rito. A forma como Ash conduziu a noite foi única. Seus gestos no palco dialogavam diretamente com a plateia, como um maestro que rege uma ópera do submundo. Cada movimento parecia calcular o impacto emocional do próximo instante, guiando o público por entre explosões de fúria e mergulhos de introspecção. Não havia distância entre palco e público.
E eu cantei. Cantei muito. Não como espectadora, mas como parte daquele organismo coletivo que pulsava dentro do Caverna Rock Pub. Cada verso entoado foi uma libertação, uma forma de transformar a saudade. Foi libertador.
Fora do palco se revelou outra face humana, acessível no abraço apertado trocado com meu amigo de estrada no metal, o Pavulom. Um gesto simples, mas carregado de significado, como se naquele instante toda a brutalidade sonora se dissolvesse em respeito mútuo e reconhecimento.
A performance do Nargaroth é extremamente fiel à essência que consagrou o projeto ao longo dos anos. Sem excessos, sem concessões. Apenas a entrega necessária para que a mensagem fosse transmitida da forma como deve ser: direta, incômoda e verdadeira.
O público respondeu à altura não como meros espectadores, mas como participantes de um rito coletivo. Cada olhar distante, cada cabeça baixa, cada punho cerrado dizia mais do que qualquer palavra poderia traduzir. Naquela noite, o Caverna Rock Pub não foi apenas uma casa de shows: foi um templo de memórias.
O Nargaroth mostrou que sua música não pertence apenas ao presente e habita tudo aquilo que já fomos, tudo que perdemos e tudo que, de alguma forma, ainda permanece.
