David Robert Jones, o eterno David Bowie, completou 79 anos no último dia 8 de janeiro, e hoje, dez anos de sua morte. Um dos nomes mais influentes da história do rock, Bowie foi sinônimo de inovação e reinvenção, construindo uma carreira marcada por transformações constantes, nas quais cada fase apresentou uma nova identidade artística, estética e conceitual. Muito além da música, sua influência se estendeu ao teatro, ao cinema, à moda e às artes visuais, consolidando-o como um dos artistas mais versáteis da era contemporânea. Não por acaso, ficou conhecido como o “Camaleão do Rock”.

Detalhe da Casa de Bowie em Brixton – Foto: Reprodução AP

David Robert Jones, nasceu em 8 de janeiro de 1947, em Brixton, no sul de Londres, uma cidade ainda marcada pelas cicatrizes da Segunda Guerra Mundial. Desde cedo, Bowie se destacou por sua criatividade e inquietação, cercado por discos, livros e referências culturais como Elvis Presley, Little Richard e Fats Domino, que despertaram sua paixão pela música e pelas artes. Ainda na infância, ele já impressionava professores e colegas com sua voz, presença de palco e talento artístico.

Na adolescência, Bowie aprofundou seus estudos em arte, música e desenho, explorando também design gráfico, tipografia e layout. Um ponto decisivo surgiu quando seu meio-irmão, Terry Burns, o apresentou ao jazz moderno, fazendo-o admirar músicos como Charles Mingus e John Coltrane. Inspirada por essa paixão, sua mãe lhe deu um saxofone em 1961, e ele começou a ter aulas com um professor local, consolidando sua base musical.

Em 1962, uma briga escolar mudou sua aparência para sempre: um soco no olho esquerdo deixou a pupila permanentemente dilatada, fenômeno conhecido como anisocoria. Essa marca física, embora fruto de um acidente, se tornaria uma de suas características visuais mais icônicas. Apesar do incidente, Bowie manteve a amizade com o amigo envolvido, George Underwood, que mais tarde ajudaria a criar a identidade visual de seus primeiros álbuns.

Esses primeiros anos de descobertas musicais, experiências artísticas e desafios pessoais já anunciavam o talento único que faria de David Bowie um dos artistas mais inovadores e inesquecíveis da história do rock.

No mesmo ano, aos 15 anos de idade, Bowie formou sua primeira banda de rock, os Kon-rads onde ele juntamente a outros membros, se apresentavam em pequenas festas, casamentos e eventos locais.

David Bowie – 1960s – Various Personalities – (Rex Features via AP Images)

Entre 1962 e 1968, David Bowie viveu um período intenso de formação artística e busca por identidade musical: formou sua primeira banda, os Kon-rads, tocando rock and roll em eventos sociais, mas logo se frustrou com as limitações criativas do grupo. Determinado a se tornar uma estrela do rock, passou por diversas bandas de inspiração blues e rock: King Bees, Manish Boys, Lower Third, Buzz e Riot Squad, lançando alguns singles que não obtiveram sucesso comercial.

Nesse período, Bowie também enfrentou mudanças constantes de empresários e começou a se distanciar do blues tradicional, ampliando suas influências musicais e artísticas. Em 1967, adotou definitivamente o nome David Bowie, buscando evitar confusões com o nome de Davy Jones, dos The Monkees e também inspirando-se no sobrenome de Jim Bowie, uma personalidade do século 19 que também popularizou o nome de uma faca inspirada no seu nome (Bowie knife). No mesmo ano, lançou seu primeiro álbum, David Bowie, que misturava pop, folk e psicodelia, mas teve pouca repercussão.

Paralelamente, seu encontro com o dançarino e coreógrafo Lindsay Kemp foi decisivo para sua formação artística, despertando seu interesse pelo teatro, pela mímica e pela criação de personagens. Essa fase marcou o início da construção do Bowie performático e conceitual, que mais tarde se tornaria uma de suas maiores marcas, ao unir música, dramaturgia e experimentação estética.

Em 1969, alcançou seu primeiro sucesso com “Space Oddity, inspirando-se fortemente na época da corrida espacial e também no icônico filme de Stanley Kubrick, “2001: A Space Odyssey”, introduzindo o personagem icônico Major Tom, um astronauta solitário que simbolizava alienação e isolamento, que também seria mencionado posteriormente na música Ashes to Ashes do álbum Scary Monsters (and Super Creeps). Esta fase foi marcada pela transição de um estilo mais vanguardista para uma pegada mais folk e progressiva. Marcando o início de uma carreira pautada pela experimentação e pelo constante desafio às convenções musicais e culturais.

Simultaneamente, Bowie se envolveu intensamente com a cena artística alternativa de Londres. À frente do Beckenham Arts Lab, ele promoveu encontros entre música, poesia e performance, culminando em um festival gratuito que simbolizava seu desejo de integrar arte e comunidade. Experiência eternizada mais tarde na canção “Memory of a Free Festival.

O passo seguinte foi uma ruptura estética. Em The Man Who Sold the World (1970), Bowie transitou da pegada folk do álbum anterior, mergulhando em um som mais pesado, alinhado ao hard rock do início da década. O disco também marcou sua primeira grande provocação visual: na capa original britânica, Bowie apareceu de vestido, explorando deliberadamente a androginia causando curiosidade e debate antecipando sua futura relação com identidade e performance.

Durante a divulgação do álbum nos Estados Unidos, Bowie entrou em contato com a música de Iggy Pop e Lou Reed, duas influências fundamentais. Foi nesse momento que surgiram os primeiros esboços de uma ideia que ainda ganhava forma: a criação de um personagem extraterrestre, uma estrela do rock que parecia “ter vindo de Marte”.

Logo em seguida, veio o lançamento de Hunky Dory. Mais acessível e melódico, Bowie passou a dar mais espaço ao piano na hora de compor, deixando a guitarra em segundo plano, unindo pop, folk e lirismo sofisticado. Bowie presta homenagens diretas a artistas que o influenciaram, como Bob Dylan, Andy Warhol e Lou Reed. Ao mesmo tempo, o disco expande seu universo temático ao cruzar sua vida íntima, como “Kooks”, escrita para seu filho Duncan Jones, com reflexões mais amplas sobre identidade, filosofia e reinvenção artística como em “Life on Mars?”, “Oh! You Pretty Things” e “Changes”. sintetizam esse equilíbrio entre o pessoal e o grandioso, o pop e o conceitual. Hunky Dory se consolidaria como uma das obras chave na construção do Bowie que estava prestes a transformar a música.

 

Glam Rock e a Era Ziggy Stardust

A consagração de Bowie veio com o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972). Ele criou Ziggy Stardust, um alienígena andrógino que encarnava o auge e a queda de uma estrela do rock. O personagem combinava teatralidade, sexualidade fluida e rock de vanguarda, tornando-se um ícone do glam rock e da cultura pop.

 

Ziggy Stardust: A Persona que Transformou David Bowie em Fenômeno Cultural

Em 1972, David Bowie deu o passo mais decisivo de sua carreira ao apresentar “Ziggy Stardust“, um personagem que mudou para sempre a estética e o significado do rock. Com cabelos vermelhos, figurinos futuristas e maquiagem marcante, Bowie estreou a persona ao lado da banda The Spiders from Mars, conquistando rapidamente o público e dando início a um fenômeno que ultrapassou a música. O álbum “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” uniu o peso do rock à sensibilidade melódica de trabalhos anteriores. O impacto foi imediato, impulsionado pelo sucesso de “Starman” e por uma apresentação histórica no programa Top of the Pops, que colocou Bowie no centro da cultura pop do Reino Unido. Em pouco tempo, o disco permaneceu nas paradas por meses e transformou o artista em ídolo de uma geração.

A turnê levou Ziggy ao Reino Unido e aos Estados Unidos, consolidando uma base de fãs intensa e fiel. Ao mesmo tempo, Bowie ampliava sua influência ao colaborar com outros artistas e ao escrever sucessos para nomes como o Mott the Hoople em “All the Young Dudes” reforçando sua posição como figura central do glam rock.

Em 1973, Bowie aprofundou o conceito com Aladdin Sane, álbum que ele próprio descreveu comoZiggy na América”. O disco manteve o brilho do glam rock e rendeu novos sucessos, confirmando Bowie como estrela internacional. No entanto, a fusão entre artista e personagem começou a cobrar um preço alto. As performances se tornaram cada vez mais teatrais e intensas, enquanto Bowie enfrentava dificuldades para se desvincular de Ziggy fora dos palcos.

No auge da popularidade, Bowie surpreendeu o público ao anunciar o fim do personagem durante um show em Londres, em julho de 1973. A decisão marcou o encerramento de uma das fases mais emblemáticas da história do rock e reforçou a imagem de Bowie como um artista disposto a abandonar o sucesso para seguir em constante reinvenção.

Com Ziggy Stardust, Bowie não apenas criou um personagem icônico — ele redefiniu os limites entre música, performance e identidade, deixando uma marca permanente na cultura pop.

Aladdin Sane Foto por: vam.ac.uk

Entre 1974 e 1976, David Bowie atravessou uma de suas fases mais intensas, controversas e musicalmente ousadas. Radicado nos Estados Unidos, primeiro em Nova York e depois em Los Angeles, o artista mergulhou em um período de profunda transformação criativa. O caminho começou com Diamond Dogs (1974), álbum que misturava rock, soul e funk em uma narrativa distópica onde Bowie apresenta a persona “Halloween Jackinspirada em cenários pós apocalípticos e na obra “1984”, de George Orwell. O disco gerou hits como “Rebel Rebel” e “Diamond Dogs” e uma turnê grandiosa, marcada por cenários teatrais e coreografias elaboradas, mas também expôs um Bowie fragilizado, afetado pelo uso excessivo de drogas no documentário “Cracked Actor,”.

Em seguida, Bowie aprofundou sua conexão com a música soul em “Young Americans” (1975), trabalho que o próprio definiu como plastic soul. A mudança de estilo rendeu sua primeira canção número um nos Estados Unidos, “Fame” escrita em parceria com John Lennon, que também aparece nos backing vocals, além de Carlos Alomar e consolidou sua presença no mercado americano.

Posteriormente, veio o álbum Station to Station (1976), disco que apresentou oficialmente a persona “Thin White Dukeinspirado visualmente no personagem “Thomas Jerome Newton que Bowie interpreta no filme “The Man Who Fell to Earth”. Visualmente, o personagem era definido por uma elegância minimalista: cabelos loiros penteados para trás, pele pálida, camisa branca, colete ou jaqueta escura e postura rígida, quase aristocrática. Bowie descreveu o Thin White Duke como um homem emocionalmente distante, “sem empatia”, que parecia se mover pelo mundo como um observador desencantado, preso a rotinas obsessivas e a uma visão fragmentada da realidade.

Musicalmente e conceitualmente, Duke incorporava temas de alienação, decadência europeia, misticismo e ocultismo. Ao mesmo tempo, o personagem foi associado a declarações políticas controversas, elementos que mais tarde Bowie atribuiu ao estado psicológico extremo em que se encontrava, agravado pelo uso intenso de drogas.

A fase do Thin White Duke permanece como um capítulo crucial da trajetória de David Bowie: um momento em que sofisticação estética, inovação musical e autodestruição caminharam lado a lado e, que, paradoxalmente, abriu caminho para sua reinvenção artística nos anos seguintes.

 

O Renascimento em Berlim e a Experimentação Eletrônica (1977-1979)

David Bowie e Iggy Pop – Foto por: DW

Entre 1976 e 1979, David Bowie protagonizou uma das viradas mais radicais e influentes da história do rock. Fugindo do caos de Los Angeles e de um vício severo em cocaína que ameaçava sua saúde, o “Camaleãobuscou refúgio na Berlim Ocidental. O que se seguiu foi um período de experimentação profunda, onde Bowie abraçava o minimalismo e a vanguarda europeia.

Dividindo um apartamento no bairro de Schöneberg com Iggy Pop, e trabalhando em estreita colaboração com o produtor Tony Visconti e o músico Brian Eno, Bowie mergulhou em uma estética mais experimental e introspectiva criando a icônica Trilogia de Berlim, composta pelos álbuns Low, Heroes e Lodger.

Os dois primeiros exploraram estruturas minimalistas, música eletrônica e uma forte influência do Krautrock alemão, enquanto Lodger trouxe uma abordagem mais rítmica e cosmopolita, incorporando elementos de new wave.

Low (1977): Inicialmente incompreendido pela gravadora e pela crítica, o álbum quebrou estruturas tradicionais. Com poucas letras e paisagens sonoras abstratas, o disco provou sua genialidade com o tempo, tornando-se uma peça fundamental para a música eletrônica e pós-punk.

Heroes (1977): Gravado a poucos metros do Muro de Berlim, o álbum capturou a tensão da Guerra Fria. A faixa-título, inspirada em um casal de amantes sob a vigilância das torres de guarda, transformou-se em um hino de resistência e esperança, consolidando-se como uma das maiores obras de Bowie.

Lodger (1979): O encerramento do ciclo trouxe uma sonoridade mais voltada para a World Music e o New Wave. Foi um período de experimentação lúdica, utilizando métodos inusitados de composição, como as “Estratégias Oblíquas” de Eno (cartas com instruções aleatórias para guiar o processo criativo).

 

Legado e Superação

Para além da música, a fase alemã foi um processo de cura. Na turnê Isolar II, em 1978, Bowie subiu aos palcos sóbrio pela primeira vez em anos, reconectando-se com o público e consigo. Além de colaborar com seu seu amigo e ícone, Iggy Pop, nos álbuns The Idiot e Lust for Life.

 

Consolidação pop e Tin Machine (anos 1980–1990)

Se os anos 70 foram dedicados à experimentação e à busca de identidade, a década de 1980 viu David Bowie abraçar o topo do mundo. Foi o período em que o “Camaleãodeixou de ser um enigma das artes para se tornar uma das maiores estrelas pop do planeta, dominando as paradas, a MTV e os palcos dos maiores estádios do mundo.

 

O Retorno Triunfal e a Era “Let’s Dance”

A década começou com o aclamado Scary Monsters (and Super Creeps) (1980), onde Bowie revisitou o clássico personagem Major Tom no hit “Ashes to Ashes“. Mas o verdadeiro divisor de águas veio em 1983: sob a produção de Nile Rodgers, Bowie lançou “Let’s Dance. O álbum não apenas o apresentou a uma nova geração, mas o colocou no centro da cultura pop comercial com sucessos como “Modern Love” e “China Girl“.

Os anos 80 também foram marcados por parcerias lendárias que entraram para a história da música: a icônica “Under Pressure”, onde em 1981, Bowie decidiu visitar o Queen em seu estúdio de gravação na Suíça. O que começou como uma simples “jam session” entre amigos evoluiu rapidamente para um dueto vocal histórico entre David Bowie e Freddie Mercury. “Foi um verdadeiro prazer trabalhar com ele, tem um tremendo talento”, declarou Mercury na época. A música, que trata da pressão social e da necessidade de amor, tornou-se o terceiro single de Bowie a atingir o topo das paradas britânicas e é, até hoje, considerada uma das melhores colaborações da história do rock. Também o dueto energético com Mick Jagger para o projeto beneficente Live Aid em “Dancing in the Street”.

Jennifer Conely e David Bowie em Labirinto, 1986 – Foto por: Reprodução Rotten Tomatoes

Já no cinema e teatro: Bowie mostrou sua versatilidade ao brilhar na Broadway com O Homem Elefante e ao encantar o público como o Rei dos Goblins em Labirinto (1986).

Embora trabalhos como Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987) tenham recebido avaliações mistas, o período consolidou sua imagem como um dos maiores nomes do pop mundial, capaz de transitar entre vanguarda, entretenimento de massa e espetáculo em escala global.

No final dos anos 80, Bowie dissolveu sua persona de “megastar” para tornar-se vocalista de uma banda democrática chamada Tin Machine ao lado do guitarrista Reeve Gabrels, do baixista Tony Fox Sales e e do baterista Hunt Sales. Bowie buscou o oposto do que havia feito nos anos anteriores: saíram os sintetizadores polidos e entraram as guitarras distorcidas, letras improvisadas e um som que beirava o grunge e o hard rock. Após um segundo disco (Tin Machine II) e uma turnê mundial, o grupo se dissolveu em 1992. No entanto, o objetivo de Bowie foi alcançado: ele estava pronto para retornar à sua carreira solo com as energias renovadas e uma nova direção sonora que definiria sua produção nos anos seguintes.

Nos anos 1990, David Bowie entrou em uma nova etapa de reinvenção artística, marcada por colaborações de peso, reconhecimento e uma constante renovação musical. Em 1992, participou do concerto em tributo a Freddie Mercury, interpretando clássicos como “Heroes” e “Under Pressure. No mesmo período, sua vida pessoal ganhava estabilidade com o casamento com a modelo Iman, com quem passou a viver em Nova Iorque.

Musicalmente, Bowie voltou ao topo das paradas britânicas em 1993 com Black Tie White Noise, álbum que mesclava soul, jazz, hip-hop e eletrônica, reunindo-o novamente ao produtor Nile Rodgers. O disco marcou um retorno ao sucesso comercial e também trouxe a última colaboração com Mick Ronson, parceiro da era Ziggy Stardust. Em seguida, Bowie explorou caminhos mais alternativos e introspectivos em The Buddha of Suburbia, trabalho elogiado pela crítica por sua liberdade criativa.

A metade da década foi marcada por uma guinada conceitual com Outside (1995), álbum experimental criado em parceria com Brian Eno, que apresentou uma narrativa fragmentada sobre arte e violência. O projeto foi levado aos palcos em uma turnê conjunta com o Nine Inch Nails. Em 1996, essa trajetória foi oficialmente reconhecida com sua entrada no Rock and Roll Hall of Fame.

O ciclo se consolidou com Earthling (1997), disco que incorporou influências de drum and bass e música eletrônica contemporânea, alcançando sucesso crítico e comercial. A faixa “I’m Afraid of Americans”, remixada por Trent Reznor, ampliou sua presença junto a um público mais jovem. Ao longo da década, Bowie também se envolveu em projetos pontuais, colaborações e gravações beneficentes, encerrando os anos 1990 como um artista em constante movimento, fiel à sua vocação de transformação.

David Bowie e Iman em seu casamento – Foto: Instagram David Bowie (arquivo pessoal)

A partir do fim dos anos 1990, David Bowie entrou em uma fase marcada por maturidade artística, experimentação pontual e uma relação mais reservada com a vida pública. Em 1999, ampliou seu interesse por novas mídias ao compor a trilha sonora do jogo Omikron: The Nomad Soul, no qual também apareceu como personagem ao lado de Iman. No mesmo período, lançou ’hours…, álbum que sinalizou um afastamento das sonoridades eletrônicas e retomou uma instrumentação mais tradicional.

Nos anos seguintes, Bowie alternou projetos engavetados e retornos criativos consistentes. Heathen (2002), produzido com Tony Visconti, marcou uma reconexão com temas introspectivos e recebeu boa acolhida da crítica, sendo acompanhado por uma turnê internacional. Em 2003, Reality apresentou um artista reflexivo, revisitando sua própria trajetória, e deu origem à Reality Tour, uma das mais bem-sucedidas de sua carreira. A turnê, no entanto, foi interrompida em 2004 após Bowie sofrer problemas cardíacos, episódio que levou ao cancelamento de apresentações e a uma drástica redução de suas atividades públicas.

Recuperado, Bowie passou a aparecer de forma pontual, priorizando colaborações seletivas, participações beneficentes e projetos especiais. Recebeu prêmios importantes, como o Grammy pelo conjunto da obra, e anunciou uma pausa prolongada em discos e turnês. Durante esse período, manteve-se ativo nos bastidores da cultura pop, atuando como curador de festivais e colaborando com artistas contemporâneos.

Após quase uma década longe dos lançamentos solo, Bowie surpreendeu o público em 2013 com The Next Day, álbum que marcou um retorno triunfal, alcançando o topo das paradas britânicas e reafirmando sua relevância artística. Seguindo uma postura discreta, evitou entrevistas e deixou que a obra falasse por si. O ciclo se encerrou de forma impactante com Blackstar (2016), lançado poucos dias antes de sua morte. Amplamente aclamado, o disco foi posteriormente entendido como uma despedida consciente, na qual Bowie transformou sua própria mortalidade em arte, consolidando um dos finais de carreira mais fortes e simbólicos da história da música popular.

 

 

 

Texto por: Nayara Sabino

Fotos Galeria Por: Reprodução Internet