Há quase 25 anos, em algum dia de setembro de 2001, era lançada, em terras brasileiras, uma versão Heavy Metal de um grande clássico da literatura: estamos falando de Hamlet, a mais famosa obra escrita por William Shakespeare, entre os anos de 1599 e 1601.
A peça fala sobre a história do príncipe dinamarquês Hamlet, que tenta vingar a morte do seu pai, envenenado pelo próprio tio, Cláudio, que assumiu o trono depois do crime e ainda casou-se com a viúva Gertrudes. Após encontrar-se com o espírito do pai, que contou o que o novo Rei lhe fez, ele consegue matar o tio, mas ao final, ele também vem a falecer.
O selo Die Hard transtornou a tragédia em música, e como na época o Brasil estava com uma ótima geração de bandas de Rock e Metal, a ideia foi logo colocada em prática. Muitas bandas foram convidadas, algumas não conseguiram alinhar as agendas de shows com o cronograma de gravações, e 14 bandas acabaram entrando na coletânea.
Antes mesmo do convite às bandas, coube a Adriano Villa, poeta especializado em Shakespeare. O processo não foi fácil, como ele mesmo afirmou em entrevista para o site “A Ilha do Metal“, que iremos reproduzir abaixo:
“Quanto ao processo de composição, foi árduo, devo confessar. Eu havia lido a peça antes de começar o processo, mas com caráter de entretenimento e conhecimento. Quando surgiu a possibilidade de transformá-la em letras, as coisas mudaram de figura. Foram alguns meses lendo e relendo e assistindo ao filme exaustivamente. Eu não sabia exatamente como escrever as letras. Não podia simplesmente sair escrevendo, precisava de uma explicação, de um ponto de partida, de algo que tornasse as letras algo sequencial. Lembro que fiquei pensando nisso durante dois meses inteiros. Foi quando tive a idéia de escrever as letras pelo olhar de Horacio, amigo do príncipe. As coisas tomaram seu rumo e em menos de dois meses toda a peça estava transformada em letras.“
Com as letras escritas, entrou em cena Alexandre Callari, baterista do Delpht, foi o responsável pela produção do álbum. As próprias bandas contribuíram com as músicas. Depois de concluídas as gravações, o material foi enviado para a Alemanha, onde foi mixado, no Gate Studio, por duas figuras conhecidas aqui na cena brasileira: Sascha Paeth e Michael “Miro” Rodenberg.
Das bandas que aceitaram o convite, algumas poucas ainda seguem em plena atividade, como os casos do NervoChaos, Torture Squad, Imago Mortis, Eterna e Tuatha de Danann. Outras, não lançam álbuns há algum tempo, como o Vers’Over, Krusader. O Hangar, recentemente retornou às atividades, depois de uma pausa, e outras, como o Delpht, Santarém, Hammer of the Gods, Symbols, Fates Prophecy e o Sagga, que antes de encerrar, mudou seu nome para Holy Sagga.
Para o Symbols, “Hamlet” significou a despedida dos irmãos Edu e Tito Falaschi. Edu foi para o Angra, pouco tempo depois de ter gravado a faixa “Stormy Nights“, indo ocupar o lugar deixado por Andre Matos, que também participou deste álbum, sendo uma das vozes de “To be…“, a faixa que encerra o play. Já Tito Falaschi, abriu mão da carreira de músico, passando a se dedicar à produção de artistas.
O álbum é composto por 19 faixas, sendo quatro interlúdios, que vão conectando partes da história, mais a última faixa, a já citada “To be...”, onde Andre Matos e todas as quatorze bandas que tocaram uma música cada, participam em um grande coral, que fecha a obra com chave de ouro. São 74 minutos, onde destacamos o Power Metal do Symbols, Hangar, Delpht, Sagga e Eterna, o Hard Rock do Santarém, o Progressive do Hammer of the Gods, o Doom Metal do Imago Mortis, o Folk Metal do Tuatha de Danann, e até mesmo o Metal extremo do NervoChaos e Torture Squad, que em um primeiro momento, podem destoar um pouco das demais bandas, mas as músicas de ambas as bandas ficaram muito boas.
O audacioso projeto deu resultados, a começar pelos elogios da crítica especializada como um todo. No ano seguinte, a Die Hard havia contabilizado mais de 6 mil cópias vendidas, o que, em se tratando de uma obra do underground, sem o apoio das grandes gravadoras e da mídia em geral, pode sim, ser considerado um sucesso retumbante.
Parece que foi ontem, mas já tem quase ¼ de século que bandas 100% Brasileiras conseguiram transformar em música aquilo que já era perfeito na literatura. Se você por acaso nunca ouviu, está perdendo tempo. É uma oportunidade sem igual de ouvir nosso estilo favorito, ao mesmo tempo que adquirimos conhecimento através da cultura, que muitos ignoram. Alguns até chegaram a dizer que livros não passam de um monte de palavras amontoadas. A ignorância é imperdoável.
William Shakespeare’s Hamlet –
Data de lançamento – setembro de 2001
Gravadora – Die Hard
Faixas:
01 – From Hades to Hell – Delpht
02 – Sweet Flavour of Justification – Santarém
03 – The Happiness Of The Queen – Voice Vignette
04 – Visions Of The Beyond – Hammer of the Gods
05 – Villainy – Flute Vignette
06 – The King’s Return – Krusader
07 – The Truth Appears – NervoChaos
08 – The Play – guitar Vignette
09 – A Letter To Ophelia – Vers’Over
10 – Dagger of Words – Sagga
11 – Prayers in the Wind – Imago Mortis
12 – Stormy Nights – Symbols
13 – Hand of Fury – keyboard Vignette
14 – Hidden by Shadows – Hangar
15 – Mandate for Freedom – Torture Squad
16 – Trap – Fates Prophecy
17 – Goodbye My Dear Ophelia – Eterna
18 – The Last Words – Tuatha de Danann
19 – To be… – vários
TEXTO POR FLÁVIO FARIAS
