Antes de tudo, fca o agradecimento à Free Music por recepcionar novamente a Headbangers Brasil para mais uma cobertura e resenha direto de Lisboa.
A República da Música, em Lisboa, recebeu uma noite onde o contraste foi a grande força: primeiro, o mergulho sombrio e intimista do VOWWS; depois, a explosão teatral e imprevisível do Kim Dracula, num show que fugiu de qualquer molde convencional.
Abrindo a noite, o duo australiano VOWWS entregou exatamente o tipo de experiência que não precisa de excessos para prender atenção: luzes escuras, clima obscuro, presença discreta e uma atmosfera quase ritualística, daquelas que parecem puxar o público pra dentro do som.
A reação deixou claro que parte da plateia já conhecia bem aquela estética — e era visível que o público que mais vibrou parecia um pouco mais velho, familiarizado com referências góticas e com o dark alternativo que o VOWWS conduz com naturalidade.
Mesmo com um set mais contido e intimista, foi uma apresentação bem aceita, com músicas fortes e
identidade própria, especialmente em faixas como “Structure of Love II”, “Blood’s on Fire” e “Hurt You”, que soaram como trilha perfeita para preparar o terreno do que viria depois.
Mas o que veio depois não foi apenas uma troca de ritmo — foi praticamente um novo universo. Kim Dracula mostrou em Lisboa por que é tratado como um fenômeno à parte dentro do segmento
alternativo: antes mesmo do primeiro impacto da banda, o show começou com uma intro teatral, quando o vocalista entrou pela pista, cortando o público ao meio por uma trilha aberta no centro, marchando com postura de comando, vestido como um capitão rumo ao palco.
E, quando fnalmente assume seu lugar, a banda já entra com uma energia absurda, como se não existisse “aquecimento”: era ataque direto.
A apresentação se sustentou em intensidade total e carisma de arena… dentro de um clube. E esse foi um dos pontos mais fortes: a sensação era de proximidade real. Kim Dracula falava, reagia, provocava e comandava o ambiente, como se já conhecesse cada rosto na plateia — e o público devolvia na mesma moeda, mantendo o show em ebulição do início ao fim.
Musicalmente, o set foi um desfile de mudanças rápidas de clima, peso e humor, e dois momentos viraram gatilhos coletivos imediatos: a versão de “Even Flow” (Pearl Jam) e o cover de “Paparazzi” (Lady Gaga), que transformaram a casa num só coro, com gritos e celulares erguidos como se fossem hits autorais.
No meio desse caos organizado, ainda houve espaço para o saxofonista brincar com a plateia, puxando temas conhecidos e trazendo aquele tipo de detalhe inesperado que reforça o quanto o show do Kim Dracula não se limita a “tocar músicas”, mas sim construir momentos.
No fm, o que fcou foi a sensação de ter visto duas propostas opostas funcionando perfeitamente na mesma noite: VOWWS abriu com sombra e elegância, e Kim Dracula fechou com espetáculo, presença e imprevisibilidade.
Lisboa saiu com a certeza de que aquela estreia não foi só um show — foi um acontecimento.
TEXTO POR LUKKA LEITE
FOTOS POR NAYARA SABINO



















