Algumas noites de show ficam marcadas não apenas pela música, mas pelo que elas representam. Essa foi uma delas. Em meio ao frio cortante de janeiro, onde a sensação térmica em Berlim beirava os 12 graus negativos, entre atrasos de turnê, mudanças de line-up e meses de expectativa, o que se viu no palco foi muito mais do que uma sequência de apresentações: foi um encontro poderoso de mulheres que comandam, lideram e transformam a cena heavy metal atual — cada uma à sua maneira.
Abrindo a noite, Seraina Telli mostrou logo de cara que não estava ali para cumprir tabela. Ao lado do baterista Mike Malloth, ela tomou o palco com uma presença magnética, misturando hard rock moderno, atitude punk e uma estética visual que parecia saída de um conto de fadas contemporâneo. As flores gigantes iluminadas, o verde intenso das luzes e sua figura (cabelos azul-esverdeados, roupas coloridas, postura firme) criaram um universo próprio, quase onírico.
O que mais me chamou atenção, porém, foi como Seraina ocupa o espaço sem pedir licença. Sua voz transita com naturalidade entre tons rasgados e passagens melódicas, enquanto sua comunicação direta com o público quebra qualquer distância logo nos primeiros minutos. Não é apenas potência sonora, é identidade, é narrativa, é a segurança de quem sabe exatamente quem é no palco. Um início de noite que aqueceu o público não só do frio, mas da previsibilidade.
Se Seraina trouxe cor e fantasia, o SetYøurSails entrou para demolir tudo. Com Jules Mitch à frente, a banda assumiu o papel mais pesado da noite sem qualquer hesitação. Aqui não há delicadeza: há confronto, catarse e urgência. Jules não canta apenas, ela comanda, provoca e puxa o público para dentro do caos controlado que é o show da banda.
Seus vocais, alternando entre screams cortantes, growls profundos e falas agressivas, são acompanhados por uma presença de palco feroz. Mas o impacto vai além da música. Há um posicionamento claro, explícito, contra racismo e sexismo, que dá ainda mais peso ao discurso artístico do SetYøurSails. É women power sem verniz: direto, político e absolutamente necessário. Mesmo para quem não é fã de metalcore, é impossível sair indiferente.
E então veio o momento mais aguardado da noite. Beyond The Black entrou em cena como quem sabe exatamente o tamanho que ocupa hoje na cena europeia, e muito disso passa pela força da vocalista Jennifer Haben. Vestida de preto, ela domina o palco com uma elegância quase serena, mas nunca frágil. Sua voz impressiona não só pela técnica impecável, mas pela capacidade de alternar entre suavidade e intensidade sem perder emoção.
Depois da brutalidade do metalcore, Jennifer soa quase etérea, mas isso não significa menos poderosa. Pelo contrário. Há algo de profundamente inspirador em ver uma mulher comandando um palco desse porte com tanta segurança. Ela simplesmente é. Canções como “Break the Silence”, “Hysteria” e “Ravens” ganham ainda mais peso ao vivo, especialmente quando as icônicas asas douradas surgem no palco, transformando o momento em algo simbólico: vulnerabilidade e poder coexistindo na mesma imagem.
O que mais me tocou foi como os temas do novo álbum (solidão, desconexão, polarização) ganham um caráter quase íntimo ao vivo. Quando Jennifer fala sobre a perda dos tons de cinza nas relações humanas, não soa como discurso ensaiado, mas como um convite real à reflexão. E quando o público canta junto em “In the Shadows” ou no final com “Hallelujah”, fica claro que Beyond The Black já ultrapassou há muito o status de banda: é um espaço de pertencimento. Recentemente, resenhamos o mais novo álbum da banda, “Break the silence” e você pode conferir aqui.
Três bandas, três mulheres à frente, três formas muito diferentes de exercer liderança no palco. E todas igualmente potentes. Seraina Telli mostrou que fantasia, autenticidade e força caminham juntas. Jules Mitch provou que agressividade também pode ser um ato político e libertador. Jennifer Haben reafirmou que sensibilidade e domínio não são opostos, mas aliados.































