Com mais de três décadas de estrada, a Distraught se consolidou como uma das bandas mais consistentes do Thrash Metal Brasileiro. Desde o início dos anos 90, o grupo construiu uma discografia marcada por agressividade musical, técnica apurada e letras que abordam sem filtros as contradições da sociedade contemporânea.
Em 2025, a banda apresentou ao público o EP inVolution, um trabalho conceitual que mergulha em uma visão sombria sobre o rumo da humanidade. Estruturado em torno dos cinco elementos clássicos — Terra, Água, Ar, Fogo e Aether — o lançamento conecta eventos históricos, crises ambientais e tragédias sociais para refletir sobre aquilo que a banda define como uma regressão moral e civilizatória da humanidade.
Nesta entrevista, conversamos com a Distraught sobre a construção conceitual de inVolution, o simbolismo presente nas novas composições e como o grupo enxerga o papel do metal como ferramenta de reflexão e crítica social.
HBr: A Distraught nasceu em 1990 em Porto Alegre e atravessou diversas fases da cena metal brasileira. Como vocês enxergam hoje essa trajetória de mais de três décadas dentro do thrash metal nacional?
André: Acho que a cena metal já foi melhor, principalmente aqui no Brasil, tudo está mudando muito, e acho que é natural. Creio que essa nova geração tem outro interesse na questão musical.
HBr: Ao longo da carreira, a banda sempre manteve uma forte identidade lírica voltada para críticas sociais e reflexões sobre a condição humana. De onde vem essa necessidade de abordar temas tão densos nas composições?
André: Sempre tivemos a necessidade de por para fora tudo aquilo que não aceitamos. A humanidade tem suas formas de protestar contra o que não está correto, a nossa é através de nosso som e letras.

HBr: O novo EP inVolution traz um conceito filosófico bastante forte logo no título. Como surgiu a ideia de trabalhar a noção de involução como contraponto à ideia tradicional de progresso humano?
André: O título “Involution” não surgiu como ponto de partida. Eu tive essa ideia a partir de todo o EP já pronto.
HBr: O álbum também apresenta um simbolismo interessante com o V do título remetendo às cinco faixas e aos cinco elementos clássicos da natureza. Quando surgiu essa estrutura conceitual para o trabalho?
Ricardo: Quando já estávamos com as 5 músicas prontas retomamos a busca pelo título do álbum, algo que sempre fica em aberto, mas que preferimos resolver só depois de ter o material completo, sem forçar nada antes da hora. Curiosamente, foi um processo muito rápido. Eu tinha uma ideia inicial mais próxima de uma frase, e o André sugeriu inVolution. Um título simples, direto, mas que carrega bem o conceito do EP. Logo depois, percebi na palavra inVolution o ‘V’ como um número romano, remetendo às cinco faixas e aos cinco elementos. Tudo se encaixou de forma muito natural, provavelmente foi a escolha de título mais rápida da história da banda.
HBr: Diferente de muitos lançamentos de thrash metal, inVolution parece funcionar quase como uma obra conceitual contínua. Vocês pensaram o EP desde o início como uma narrativa única?
André: Na verdade a primeira música escrita foi a “Bloody Mines”, nós não tínhamos essa ideia formada dos 5 elementos ainda. Eu escrevi pensando em falar sobre temas de nosso País, então comecei falando do garimpo aqui no Brasil.
Ricardo: A partir da segunda música época que estávamos passando pelas enchentes aqui no sul do país que começou formar a ideia dos elementos/conceito. O André já vinha escrevendo a letra da “Extermination of Mother Nature” e infelizmente ao mesmo tempo estava ocorrendo as queimadas no Pantanal foi quando sugeri para ele escrever uma sobre as queimadas também “Set Fire” depois seguindo esta ideia conceito surgiram Truth Denied e Aether.
HBr: A faixa Bloody Mines, associada ao elemento Terra, traz uma crítica direta à exploração humana inspirada na corrida do ouro em Serra Pelada. O que levou vocês a revisitar esse episódio histórico dentro do conceito do álbum?
André: Lembro na época quando meu pai trabalhava em transporte rodoviário, e me contava que levava muitas pessoas daqui do RS para Serra Pelada com seu caminhão. Vendiam tudo aqui na expectativa de ficarem ricos em busca de ouro. Quando chegavam lá as coisas não eram bem como imaginavam. Muitos ficaram na miséria. Então resolvi escrever revivendo um pouco do caos que sofreram e o efeito negativo ao meio ambiente que foi causado.
HBr: A música também aborda temas como trabalho escravo moderno, exploração e a ilusão da riqueza. Na visão de vocês, esse tipo de dinâmica ainda define muitos dos sistemas econômicos atuais?
Ricardo: Acho que enquanto existirem pessoas e famílias neste ‘País’ que, mesmo inseridas no mercado de trabalho, não conseguem acessar o básico (alimentação, saúde, educação e lazer) essa dinâmica continua se reproduzindo. Quando o trabalhador precisa recorrer ao crédito até para se alimentar, isso evidencia um problema estrutural de renda e distribuição. Estamos falando de um modelo que concentra riqueza, precariza relações de trabalho e sustenta a ilusão de mobilidade social. A exploração não desapareceu, ela se reorganizou. Bloody Mines dialoga exatamente com isso: um sistema que promete prosperidade, mas entrega desigualdade.
HBr: Extermination of Mother Nature, ligada ao elemento Água, faz referência às enchentes devastadoras que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Como foi transformar uma tragédia tão recente em música?
Ricardo: Essa música já tinha algumas ideias de “linhas Batera e Riffs” apresentadas pelo Thiago Caurio, eu adicionei mais algumas ideias Riffs e trabalhamos o arranjo com a letra que o André já vinha escrevendo. Sobre o tema foi algo muito intenso, porque não era uma tragédia distante a gente viveu aquilo. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul afetaram diretamente nossa realidade em Porto Alegre, então a sensação de colapso não vinha só das notícias, vinha da própria experiência cotidiana. Transformar isso em música foi quase um processo de absorver e devolver aquela tensão. Extermination of Mother Nature nasceu desse impacto: da percepção de que aquilo não era apenas um desastre natural, mas também resultado de negligência humana, de decisões políticas e de um modelo de desenvolvimento que ignora os limites da natureza. Colocar isso em música foi uma forma de registrar o momento e, ao mesmo tempo, transformar indignação em expressão.
HBr: Na letra da faixa existe uma crítica clara à negligência política diante da crise climática. Vocês acreditam que o metal ainda tem força como forma de denúncia social?
André: A negligência política na crise climática sempre se encontra presente, assim como a cultura desinformada e despreocupada das pessoas de preservar nosso planeta. Acreditamos sim, que através da nossa música, possamos passar uma mensagem de alerta dos cuidados que precisamos ter com nosso habitat.
HBr: Truth Denied aborda o negacionismo e a desinformação durante a pandemia de COVID-19. Como foi trabalhar um tema tão sensível e recente dentro do universo da banda?
André: O elemento ar é representado na “Truth Denied”. Em particular é tenso esse tema da COVID-19 devido a tantas falhas pelo descaso de milhares de vidas perdidas por parte de governantes. Meu pai foi uma das vítimas desta estatística cruel.
HBr: Na opinião de vocês, a desinformação se tornou uma das maiores ameaças da sociedade contemporânea?
Ricardo: Sem dúvida! A desinformação hoje funciona quase como uma arma. Em um mundo hiperconectado, a informação circula muito rápido, mas nem sempre com responsabilidade ou compromisso com a verdade. Isso cria um ambiente perfeito para a alienação, onde muitas pessoas não questionam nem procuram verificar se o que recebem é fato ou mentira. Assim, informações distorcidas acabam sendo replicadas continuamente. E é justamente contra esse tipo de cegueira coletiva que nos posicionamos.
HBr: A faixa SetFire, associada ao elemento Fogo, aborda as queimadas e a destruição ambiental no Pantanal. O que mais impactou vocês ao pesquisar sobre esse tema para compor a música?
Ricardo: Na verdade, não precisou muita pesquisa porque aquilo estava acontecendo em tempo real. Enquanto vivíamos as enchentes aqui no Sul, o Pantanal estava queimando. Era água destruindo cidades de um lado e fogo consumindo um dos biomas mais importantes do país do outro. Isso deixa muito claro que não se trata apenas de fenômenos naturais. Claro que existem fatores da própria natureza, mas a negligência humana e a falta de prevenção pesam muito. Políticas ambientais frágeis, falta de fiscalização e descasos acabam transformando crises em catástrofes. SetFire nasce exatamente dessa indignação.
HBr: A letra também relaciona a destruição ambiental ao conceito de Antropoceno. Vocês enxergam esse momento da história humana como um ponto de ruptura irreversível?
Ricardo: O Antropoceno é esse nome dado ao tempo em que a atividade humana passou a marcar o próprio sistema da Terra. Em inVolution, isso aparece de forma explícita em ‘SetFire’, mas na verdade organiza o EP inteiro: cada faixa encena, por um dos elementos, um aspecto da autodestruição humana. Isso está totalmente em linha com a trajetória da Distraught, que há décadas trabalha crítica social e falência da condição humana, mas aqui isso ganha uma forma conceitual mais fechada. Eu não diria que é irreversível em sentido absoluto, porque isso seria uma forma confortável de fatalismo. Mas eu diria que já é uma ruptura histórica profunda, com danos que em muitos casos são irreversíveis na escala humana. O que o EP coloca não é o fim como espetáculo, e sim a pergunta incômoda sobre até que ponto ainda somos capazes de interromper a nossa própria involução. A formulação certa aqui é essa: evitar o apocalipse preguiçoso e evitar também o otimismo de propaganda. Os dois são intelectualmente frouxos. O melhor ponto é: já há irreversibilidades em curso, mas a irreversibilidade total não pode virar álibi moral.

HBr: Entre todas as faixas do EP, Aether chama atenção por ser instrumental e representar o quinto elemento. Por que escolheram expressar esse conceito sem letras?
Ricardo: Pelo clima da música, sentimos que ela funcionária melhor sem letra. Aether tem uma proposta mais atmosférica e serve como uma transição dentro do EP, então a ideia foi deixar que a própria sonoridade carregasse o significado.
HBr: A presença dessa música no meio do álbum parece funcionar como uma pausa contemplativa dentro de um trabalho extremamente crítico. Qual foi a intenção artística por trás dessa decisão?
Ricardo: Essa música começou a surgir a partir de grooves de bateria e percussão que o Thiago Caurio criou no final de ‘Extermination of Mother Nature’. Posteriormente, comecei a improvisar alguns acordes e camadas de guitarra, e a composição foi tomando forma. A partir dali, percebemos que podia funcionar como uma transição natural, quase como uma extensão da própria faixa. Foi então que pensamos nela como um interlúdio. A ideia era justamente criar esse respiro dentro do EP, entre duas faixas explosivas, mas sem quebrar o fluxo. Se você escuta em sequência, a mudança de faixa praticamente não é percebida — é como se três músicas formassem um único bloco contínuo
HBr: De certa forma, inVolution apresenta uma visão bastante pessimista sobre o rumo da humanidade. Vocês enxergam algum espaço para esperança dentro desse conceito?
André: Uma pergunta difícil de responder. Existe a conscientização de uma parte ainda pequena da humanidade em salvar onde vivemos. A ignorância, ambição e o egoísmo ainda falam mais alto, mesmo com as severas consequências diárias vividas.

HBr: O EP também traz uma forte presença de simbolismo alquímico e filosófico. Esse tipo de abordagem conceitual sempre fez parte do processo criativo da banda ou surgiu especificamente neste trabalho?
Ricardo: Essa abordagem já vinha sendo construída há bastante tempo dentro da banda. Desde Infinite Abyssal (2001), passando por Behind the Veil (2004), Unnatural Display of Art (2009), The Human Negligence Is Repugnant (2012) e Locked Forever (2015), a gente já trabalhava uma crítica à condição humana, à negligência social e à destruição causada pelo próprio ser humano. O que acontece em InVolution é que isso ganha uma forma mais consciente e organizada. Esses elementos simbólicos, filosóficos e até alquímicos deixam de ser algo mais difuso e passam a ocupar o centro do conceito do EP. É como se tudo o que já vínhamos desenvolvendo ao longo dos anos se condensasse de forma mais clara dentro de uma única obra.
HBr: Musicalmente falando, o que os fãs podem esperar de inVolution em comparação com discos anteriores como Locked Forever ou The Human Negligence Is Repugnant?
André: “InVolution” carrega novas ideias, ritmos e uma produção mais apurada. A retorno de nossos fãs está sendo excelente, cada álbum lançado tem seu potencial, sua originalidade e estamos muito satisfeitos com o resultado final do EP.
Ricardo: Também tem um detalhe interessante quando comparamos esses discos: cada um deles foi gravado com um baterista diferente, e isso naturalmente influencia na dinâmica da banda. The Human Negligence Is Repugnant (2012) foi com o Dio Britto, Locked Forever (2015) com o Maurício Weimar, e agora o inVolution com o Thiago Caurio. O Thiago trouxe muitas ideias novas de grooves, estruturas e até riffs, o que acabou impactando bastante na construção das músicas desse EP.
HBr: Depois de tantos anos de carreira, como vocês conseguem manter a criatividade e a relevância dentro de um estilo tão tradicional como o thrash metal?
André: Não existe uma receita, e sim a satisfação de ter em mãos músicas de qualidade, que sejam apreciadas não só para nosso público, mas para nós mesmos. São anos de dedicação para apresentar algo de qualidade.
HBr: Para encerrar, olhando para toda a trajetória da Distraught e para o lançamento de inVolution, qual vocês acreditam que é o papel da banda dentro do metal brasileiro hoje?
André: Nestes 36 anos de existência, procuramos dar sempre nosso melhor. Acho que mesmo sendo uma banda veterana no Brasil, precisamos acompanhar as gerações atuais para ganhar novos admiradores, o mundo vai se reciclando e nós estamos atentos a isso.
