Falar de Vomitory é falar de uma das bandas mais consistentes e respeitadas do death metal europeu. Desde os anos 90, os suecos construíram uma trajetória baseada em brutalidade, simplicidade e fidelidade total ao old school — sem modismos, sem firulas e sem qualquer necessidade de reinventar a roda.
Após o retorno sólido com All Heads Are Gonna Roll (2023), o grupo chega ao seu décimo álbum, In Death Throes, mostrando que ainda opera como uma verdadeira máquina de destruição sonora. Aqui não há espaço para experimentalismos desnecessários ou atmosferas artificiais: o que temos é death metal puro, sujo, pesado e direto — exatamente como deve ser.
Gravado no Leon Music Studio e produzido pelo próprio Erik Rundqvist, o álbum mantém aquela estética clássica sueca, com guitarras carregadas no HM-2 e uma mixagem crua, orgânica e esmagadora.
A sonoridade remete diretamente à escola clássica do gênero, com influências claras de Slayer nas levadas mais rápidas e cortantes, além de ecos de Carcass. Mas o peso maior vem mesmo da herança de Bolt Thrower, especialmente nos momentos mais cadenciados, onde os riffs ganham um clima de guerra esmagadora.
A arte da capa, assinada por Mike Hrubovcak, segue a linha grotesca e apocalíptica, representando bem o conteúdo sonoro: um cenário de carnificina total.
Os vocais de Erik Rundqvist seguem sendo um dos maiores destaques do álbum. Seu gutural é profundo, encorpado e com uma presença quase inumana, encaixando perfeitamente na proposta da banda sem soar exagerado ou artificial.
Nas guitarras, Urban Gustafsson e Christian Fredriksson formam uma dupla extremamente eficiente. Não há espaço para solos exibicionistas ou firulas técnicas — o foco aqui é na construção de riffs memoráveis dentro da brutalidade, e nisso eles acertam em cheio. A química entre os dois é evidente, com uma sequência praticamente ininterrupta de riffs cortantes e esmagadores.
Já Tobias Gustafsson entrega uma performance intensa e consistente. Sua bateria equilibra velocidade e precisão, alternando entre blasts caóticos e grooves pesados com naturalidade, sustentando toda a agressividade do álbum sem soar mecânico.
No geral, a banda soa entrosada, segura e plenamente consciente do que está fazendo — não há sinais de desgaste ou de execução automática, mas sim de experiência e domínio da própria identidade.

Faixa a faixa
1. Rapture in Rupture
A abertura funciona como um verdadeiro manifesto sonoro. Sem qualquer introdução ou construção gradual, a banda já entra com tudo: riffs cortantes no clássico timbre sueco, bateria em blast quase contínuo e os vocais de Erik Rundqvist soando como uma entidade grotesca comandando o caos. A música é direta, violenta e estabelece imediatamente o clima do disco: aqui não há espaço para respiro.
2. For Gore and Country
A agressividade continua em nível máximo, mas aqui com uma abordagem ainda mais acelerada e caótica. A bateria assume um papel central, conduzindo a faixa com levadas quase grindcore, enquanto as guitarras trabalham riffs rápidos e repetitivos que criam uma sensação de ataque contínuo. É uma música que aposta na intensidade bruta e entrega exatamente isso.
3. The Rapid Deterioration of Life
Nesta faixa, o Vomitory começa a mostrar pequenas variações dentro da sua fórmula. Alternando entre trechos rápidos e momentos mais cadenciados, a música ganha uma dinâmica interessante. Os riffs continuam pesados, mas há uma preocupação maior com estrutura, evitando que o álbum soe completamente linear.
4. Wrath Unbound
Um dos pontos altos do disco. Aqui a banda desacelera para explorar um peso mais denso e esmagador. Os riffs soam como tanques avançando em campo de batalha, evocando claramente a influência de Bolt Thrower. A atmosfera é de guerra total, com um groove que prende e destrói ao mesmo tempo.
5. Cataclysmic Fleshfront
Se a anterior apostava no peso, aqui a banda volta à velocidade extrema. A música é praticamente um ataque sonoro ininterrupto, com riffs caóticos e uma bateria que parece à beira do colapso — no melhor sentido possível. Em alguns momentos, há até uma leve aproximação com o slam, reforçando ainda mais a brutalidade.
6. Erased in Red
Uma das faixas mais interessantes do disco. O riff principal traz uma pegada mais thrash, lembrando claramente Exodus. Essa influência adiciona variedade ao álbum, sem descaracterizar o som da banda. É pesada, agressiva e com um groove que gruda.
7. Forever Scorned
Aqui temos uma leve desaceleração na intensidade geral. Não chega a ser uma faixa fraca, mas funciona mais como um momento de transição dentro do álbum. Ainda assim, os riffs mantêm o peso característico e a música cumpre bem seu papel dentro da sequência.
8. Rotting Hill
Retoma a agressividade com força total. A estrutura é simples, mas extremamente eficaz: riffs diretos, bateria intensa e vocais dominantes. É aquele tipo de faixa que não tenta reinventar nada, apenas entregar pancada — e faz isso muito bem.
9. Bloodlands
Uma das faixas mais focadas em groove. Mesmo mantendo a brutalidade, a banda trabalha mais o peso dos riffs e a cadência, criando uma sensação constante de esmagamento. É menos sobre velocidade e mais sobre impacto.
10. Two and a Half Men
Aqui o Vomitory mostra como a simplicidade pode ser devastadora. Um riff principal repetido de forma quase obsessiva vai sendo martelado ao longo da música, criando um efeito hipnótico e extremamente pesado. A insistência se torna a principal arma da faixa.
11. Oblivion Protocol
O encerramento traz uma leve mudança de clima. Sem abandonar o peso, a banda adiciona nuances mais melódicas e uma atmosfera um pouco mais sombria e reflexiva. Funciona como um fechamento inteligente, dando uma sensação de conclusão após a sequência intensa de agressões sonoras.
Conclusão
In Death Throes é um álbum que reforça tudo aquilo que define o Vomitory: brutalidade, consistência e respeito absoluto às raízes do death metal.
É importante deixar claro: este não é um disco que busca inovar ou surpreender através de experimentações. Pelo contrário, sua força está justamente na fidelidade à fórmula. E quando essa fórmula é executada com esse nível de competência, o resultado é devastador.
O álbum é direto, enxuto e extremamente eficiente. Em pouco mais de meia hora, entrega uma sequência de faixas que não se arrastam, não se repetem de forma cansativa e mantêm o ouvinte constantemente sob ataque. Cada música tem identidade própria, mesmo dentro de uma proposta tão sólida e definida.
Pode não ser um lançamento revolucionário, mas é exatamente o tipo de disco que mantém o death metal vivo em sua forma mais pura: pesado, agressivo e honesto.
Para fãs do estilo, especialmente os que valorizam o old school, é audição obrigatória.
Nota: 4/5
