Uma ópera-rock prog-metal monumental ou um exercício de excessos?

Desde o início de sua carreira, o Dream Theater sempre flertou com grandiosidade: arranjos complexos, músicos virtuosos e narrativas elevadas eram parte do pacote. Mas em 2016, a banda de Metal Progressivo americana foi além do que muitos imaginavam: lançou The Astonishing, um álbum conceito duplo de mais de duas horas de duração e 34 faixas, com enredo cinematográfico, personagens, conflito épico e um mundo distópico próprio.

UMA OBRA QUE BEIRA AO TEATRO MUSICAL

Em vez de apenas um conjunto de canções conectadas por temas, The Astonishing foi concebido como uma verdadeira “ópera rock” e isso não se reflete apenas temática, mas estruturalmente. O enredo se passa em um futuro feudal dominado por máquinas produtoras de música artificial (os NOMACs), onde a música humana se tornou proibida. Eis que então surgem heróis que resgatam a arte pela emoção, conexão e performance real. 

A própria ambição narrativa remete a referências como Star Wars, Game of Thrones ou Rush 2112, seja na grandiosidade ou na estética sci-fi/fantasia que incorpora reis, revoltas e redenção. 

MÚSICA, ORQUESTRA E PROJEÇÕES SONORAS

Tecnicamente, o Dream Theater nunca deixou de impressionar:

Orquestração e coral real são elementos fixos ao longo do álbum, elevando a sonoridade muito além de um disco típico de prog metal.

A banda incorpora seções que alternam entre passagens épicas cinematográficas, melodias acústicas, baladas e explosões instrumentais.

James LaBrie assume vários papéis vocais diferentes dentro da narrativa musical, quase como um elenco teatral.

Jordan Rudess (teclados) e John Petrucci (guitarras) lideram as composições num espetáculo que mescla rock, prog, metal e até um pouco de drama, no melhor estilo Broadway

É interessante notar também que, apesar da vastidão musical, há momentos em que a banda diminui o tradicional virtuosismo instrumental para privilegiar melodia e o desenvolvimento temático, transformando o álbum em quase que como uma trilha narrativa. 

Dentro dessa tapeçaria sonora, em que cada instrumento, coral e arranjo se entrelaçam como fios de uma obra detalhada e criam camadas de som que envolvem o ouvinte, algumas faixas se destacam. The Gift of Music mostra imediatamente a grandiosidade cinematográfica, enquanto Our New World traz um tom mais melódico e introspectivo. Já músicas como Moment of Betrayal resgatam o virtuosismo instrumental que os fãs tradicionais esperam, equilibrando a ambição narrativa com o peso técnico típico da banda.

O QUE AS CRÍTICAS DIZEM?

A recepção crítica ao álbum foi bastante polarizada:

Alguns dos pontos positivos trazidos pela crítica especializada:

Ambição artística rara nos tempos de singles e streaming: a ousadia de lançar um álbum inteiro que implora por audição completa foi elogiada como ousada e revitalizante.

Protagonismo vocal de LaBrie: muitos críticos destacaram sua performance versátil diante de um projeto exigente.

Produção e arranjos: a mistura com coral e orquestra dá profundidade e textura que transcendem muitos discos no gênero.

Coesão temática: apesar da extensão, a narrativa se sustenta e tem continuidade clara. 

Mas como nem tudo são só flores, seguem os pontos baixos do álbum: 

Conceito considerado “bobo” ou exagerado por alguns: algumas análises rotularam a história como simplista ou melodramática demais e para alguns fãs de prog metal mais tradicional o álbum foi considerado “muito teatral”. 

Polarização entre fãs: enquanto uns adoram seu espírito épico, outros acham a duração e as mudanças de tom cansativas ou pouco focadas. 

Meu destaque, em particular, vai para a coragem de uma banda veterana apostar em um formato tão distinto do que é considerado padrão no rock/prog/metal atual.  

REAÇÃO DOS FÃS

Como não poderia deixar de ser, a reação do público ficou dividida:

Amantes do prog mais tradicional tendem a achar o álbum longo demais ou com foco excessivo em narrativa ao invés de riffs e estruturas convencionais.

Fãs de narrativa e prog teatral afirmam que o álbum é uma experiência imersiva que recompensa audições repetidas.

Muitos desses debates ainda circulam em fóruns especializados atualmente, 10 anos depois do lançamento do álbum. Alguns chamam a obra de obra-prima, já outros veem exagero narrativo e perda do som clássico da banda. 

CONCLUSÃO: BOM OU BOMBA?

Se você aprecia obras ambiciosas, temas elaborados, altos conceitos e está disposto a ouvir um álbum como se fosse uma peça teatral inteira, The Astonishing é uma experiência sonora fascinante e quase única no metal prog moderno.

Agora, se sua preferência é por foco musical direto, power riffs e concisão, a estrutura extensa, teatral e narrativa pode parecer um projeto inflado ou desconectado da identidade clássica do Dream Theater.

Em termos musicais e conceituais, The Astonishing é uma audaciosa montanha-russa emocional e musical, que desafia os limites do que um álbum de prog metal pode ser. Ele pode não agradar a todos, mas certamente não deixa ninguém indiferente. E por isso, eu acho que The Astonishing é um bom disco.

E você, acha que The Astonishing é bom ou bomba?

TEXTO POR TATHY GIANOTTI