Com um maravilhoso texto do nosso querido Thiago Zuma e fotos maravilhosas da Patrícia Sigiliano, confiram como foi a apresentação do The Sisters Of Mercy nesse domingo, em São Paulo.

Em apresentação irregular, Sisters of Mercy só fez a festa com final apoteótico

O domingo gélido sob enganador sol paulistano colaborou com quem tirou o sobretudo do armário para encarar a sétima passagem do Sisters of Mercy pelo Brasil. O repertório escolhido para a única apresentação no país neste ano, porém, não ajudou a manter aquecido o público que lotou o Tokio Marine Hall, na zona sul paulistana.

Foi um risco calculado que a banda de Andrew Eldritch resolveu correr ao desistir de lançar discos novos do Sisters of Mercy mais de trinta anos atrás. Sem músicas recentes de divulgação para rádios ou aplicativos de streaming, das 20 faixas executadas em menos de uma hora e meia de show, a metade nunca recebeu lançamento oficial, das quais a maior parte foi tocada ao vivo pela primeira vez nos últimos cinco anos.

É louvável uma banda icônica com mais de quarenta anos de legado na música sombria querer se manter ativamente criativa, mas a escolha do repertório deste domingo teve um custo ao vivo. Entre o público majoritariamente de meia idade que abarrotou a pista do Tokio Marine Hall na noite de domingo, só uma minoria demonstrou conhecer por meio de bootlegs ou vídeos do youtube as canções que ocuparam metade do show.

Antes de a banda inglesa subir ao palco, coube ao grupo paulista 3 Pipe Problem aquecer o público enquanto a pista do Tokio Marine Hall ainda se enchia. Com um som pesado calcado no rock alternativo dos anos 90, que também não renega a influência do pós-punk britânico oitentista, o quarteto agradou o público ao longo de seus quarenta minutos.

A banda, liderada pelo guitarrista e vocalista Hafadami ao lado do tecladista Luciano Gisondi e com a seção rítmica formada por Henrique Stella (baixo) e Jonathan Pieri (bateria), abriu seu show pouco antes das sete da noite com as faixas “Cigarretz After Sex”, do EP “40” (2020) e “Stuck”, do EP de estreia “Elephant in the Room”, de 2019, tocado na íntegra.

“Timeless Waves” foi a responsável por fechar de forma animada a apresentação com o tecladista Gisondi dançando de forma aleatória pelo palco, já que a pegada grunge da canção dispensava seu instrumento. Se não chegou a empolgar muito o público nem mesmo com a pesada versão para “Double Dare”, do Bauhaus, “os mais góticos do mundo” nas palavras do vocalista, pelo menos deixou uma boa impressão.

Antecipado por uma atmosfera sombria criada por faixas instrumentais de trilhas sonoras de filmes, quando os membros do Sisters of Mercy subiram ao palco minutos após às oito horas da noite, todos de óculos escuros, a resposta do público à faixa inicial, a inédita “Don’t Drive on Ice”, fazia crer que era ainda uma matinê, apesar de o Tokio Marine Hall já estar lotado.

Mesmo “Ribbons”, faixa do último disco de estúdio da banda, “Vision Thing”, lançado no longínquo 1990, não mexeu muito com a galera presente, que começou a se soltar mais ao som de “Alice”, single de 1982 que se tornou faixa título do primeiro EP do grupo lançado no ano seguinte, executada na sequência.

Não foi suficiente para evitar a queda de ânimos novamente quando “I Will Call You” e “But Genevieve”, canções inéditas mais recentes, precederam as grudadinhas “Dominion/Mother Russia”. Na faixa de abertura do clássico “Floodland” de 1987, pela primeira vez, o Tokio Marine Hall viu alguns coros, ainda tímidos, e um clima de pista de dança começar a se espalhar pelo ambiente.

A alternância entre a recepção fria a músicas que nunca receberam lançamento oficial e faixas consagradas de discos clássicos gerando maior movimentação de corpos e vozes do público foi uma constante na noite de domingo, assim como a inexistência de comunicação direta entre Andrew Eldritch e seus fãs.

Sob iluminação bem soturna tradicional da banda, com feixes de luz projetados do chão em direção aos membros na escuridão do palco, dessa vez não houve tanta fumaça como de costume. Por outro lado, o som também não teve um volume dos mais altos, principalmente em áreas mais afastadas na pista. O peso dado pelas guitarras e pela bateria eletrônica nos arranjos das músicas chegou algumas vezes a se sobrepor ao vozeirão grave de Eldritch.

Após as inéditas “Summer” e “Show Me”, a pista esquentou para “Marian”, única do repertório extraída do disco de estreia “First and Last and Always” (1985), e principalmente “More”, single de “Vision Thing” que gerou os primeiros coros em uníssono no Tokio Marine Hall.

A empolgação dos guitarristas Ben Christo e Dylan Smith não deixou o clima esfriar na faixa “Instrumental 86”, com os músicos correndo o palco como num show de hard rock para agitar o público, que se manteve aceso no medley de “Doctor Jeep” e “Detonation Boulevard”, extraídas de “Vision Thing”, mas se apagou na inédita “Eyes of Caligula”.

A sequência final da primeira parte do show veio com a animada reação a “I Was Wrong”, de “Vision Thing”, mas logo os ânimos baixaram novamente e a banda saiu do palco após trinca de inéditas “Crash and Burn”, “On the Beach” e “When I’m on Fire” deixando um público de certa forma distraído depois de pouco mais de uma hora de apresentação.

Não foi das mais acaloradas a espera do público pelo retorno do quarteto ao palco – além do sisudo Eldritch e sua animada dupla de guitarristas, Ravey Davey comandava os samplers, as bases pré-gravadas e as batidas da “Doktor Avalanche”. Nenhum coro chamando o Sisters of Mercy de volta ao palco, apenas assobios espalhados pela casa perdidos no meio do burburinho.

Foram quase cinco minutos de intervalo antes do retorno apoteótico da banda. “Lucretia my Reflection”, de “Floodland”, mudou totalmente o ambiente do Tokio Marine Hall para se manter assim até o final da apresentação. “Temple of Love”, single de 1983 e hit quando relançado em 1992, teve atmosfera efusiva, com celulares ao alto se misturando a vultos dançando na escuridão proporcionada pela iluminação soturna.

Para fechar o show, os coros mais altos da noite vieram para “This Corrosion” desde a melodia inicial, puxada pelo guitarrista Ben Christo até o refrão da música de “Floodland”. A efervescente sequência final deixou uma sensação de que a noite poderia ter sido muito mais quente caso a banda optasse por uma repertório mais recheado de hits.

Setlists:

3 Pipe Problem (40min):

  1. Cigarretz After Sex
  2. Stuck
  3. Rush
  4. Double Dare (cover de Bauhaus)
  5. Ghosts
  6. Drowning
  7. Answers
  8. Tele is Dead
  9. Timeless Days

Sisters of Mercy (1h20):

  1. Don’t Drive on Ice
  2. Ribbons
  3. Alice
  4. I Will Call You
  5. But Genevieve
  6. Dominion / Mother Russia
  7. Summer
  8. Show Me
  9. Marian
  10. More
  11. Instrumental 86
  12. Doctor Jeep / Detonation Boulevard
  13. Eyes of Caligula
  14. I Was Wrong
  15. Crash and Burn
  16. On the Beach
  17. When I’m on Fire
    Bis:
  1. Lucretia My Reflection
  2. Temple Of Love
  3. This Corrosion