Três trajetórias marcadas por racismo, violência e apagamento histórico mostram como mulheres negras ajudaram a redefinir os caminhos da música no século XX

A história da música costuma ser contada por movimentos culturais, estilos e revoluções sonoras. Mas, para muitas mulheres negras, essa história também é sobre resistência.

Por trás de algumas das vozes mais poderosas existem histórias de superação, desigualdade e luta por espaço em um mundo que, por muito tempo, tentou silenciá-las.

Neste Dia Internacional das Mulheres, lembrar dessas trajetórias significa reconhecer que muitas artistas não apenas fizeram história na música. Elas também desafiaram estruturas sociais que limitavam suas possibilidades de existir, criar e ocupar espaços.

Algumas das vozes mais poderosas da música nasceram justamente em contextos de silêncio, violência e desigualdade. Ainda assim, foram essas vozes que ajudaram a mudar a história. Essas mulheres cantaram não apenas para entreter, mas para reivindicar o direito de existir, de resistir e de serem ouvidas.

Sister Rosetta Tharpe, Elza Soares e Tina Turner nasceram em contextos muito diferentes: Brasil marcado por desigualdade, Estados Unidos segregacionista e a indústria internacional do rock dominada por homens.

Apesar das diferenças, todas enfrentaram racismo estrutural, violência de gênero, barreiras na indústria musical e tentativas de apagamento histórico. A força de suas vozes mostra que a música pode ser uma forma de resistência e de sobrevivência.

Infelizmente, a violência contra mulheres continua sendo uma realidade em muitas partes do mundo. Segundo dados recentes das Nações Unidas, cerca de 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas em 2024 por parceiros íntimos ou familiares.

Isso representa aproximadamente 137 mortes por dia, ou uma mulher morta a cada dez minutos por alguém próximo. A maioria desses crimes acontece dentro do ambiente doméstico, justamente o espaço que deveria oferecer proteção e segurança.

No Brasil, a situação também preocupa. O país registra mais de 1.400 feminicídios por ano, o equivalente a cerca de quatro mulheres mortas diariamente por razões de gênero.

Entre as vítimas, mulheres negras representam mais de 60% dos casos, um dado que evidencia como racismo estrutural e desigualdade social ampliam esse cenário. Esses números ajudam a compreender o contexto em que muitas artistas negras construíram suas trajetórias.

Antes de se tornarem ícones culturais, várias delas precisaram enfrentar realidades marcadas por adversidade. Em muitos casos, foi justamente dessa experiência que nasceu a força criativa que transformou suas vozes em símbolos de resistência.

Sister Rosetta Tharpe – a pioneira do rock

Muito antes de o rock se tornar um fenômeno global, uma artista negra já misturava gospel, blues e guitarra elétrica de forma revolucionária. Nascida em 1915 em Cotton Plant, Arkansas, Sister Rosetta Tharpe cresceu cantando gospel com a mãe, que era evangelista, e começou a se apresentar ainda criança. Sua técnica inovadora e a fusão de gospel com blues anteciparam muitas características do rock and roll que surgiria décadas depois.

Nos anos 1930 e 1940, Tharpe viajou pelos Estados Unidos, se apresentando em grandes igrejas e eventos gospel, e se tornou conhecida como “A Rainha do Gospel Elétrico”. Sua habilidade na guitarra influenciou diretamente artistas que seriam ícones do rock, como Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley.

Durante décadas, seu papel foi pouco reconhecido fora da comunidade gospel, mas hoje é celebrada como pioneira do rock e símbolo de resistência negra.

A história da música também é feita por vozes que se recusaram a ser silenciadas, e Sister Rosetta Tharpe provou que talento e coragem podem desafiar barreiras sociais e transformar o mundo através da arte.

Elza Soares – a voz que veio do “planeta fome”

Elza Soares nasceu em 1930 na favela da Moça Bonita, no Rio de Janeiro. Cresceu em extrema pobreza, enfrentou perdas familiares e foi obrigada a se casar ainda adolescente. Desde cedo, precisou lidar com violência e desigualdade, mas encontrou na música um caminho de sobrevivência e expressão.

Nos anos 1950, participou de programas de rádio apresentados por Ary Barroso, onde foi reconhecida por sua voz única e personalidade marcante. Sua frase icônica, “Eu vim do planeta fome”, simboliza não apenas sua origem, mas também sua coragem de afirmar identidade e dignidade em meio à adversidade.

Elza construiu uma carreira longa e versátil, transitando pelo samba tradicional, bossa nova e experimentações contemporâneas. Sua voz rouca, intensa e cheia de emoção tornou-se símbolo de resistência, liberdade artística e força feminina. Ela provou que transformar dor em arte é também uma forma de resistir e reivindicar espaço.

Tina Turner – a força que reescreveu a própria história

Nascida Anna Mae Bullock em 1939, no Tennessee, Tina Turner começou sua carreira nos anos 1950 ao lado de Ike Turner. Embora tenha alcançado sucesso internacional, enfrentou anos de violência doméstica e abuso psicológico dentro do casamento.

Na década de 1970, Tina tomou a decisão corajosa de deixar Ike e recomeçar praticamente do zero. Nos anos 1980, voltou ao topo com o álbum Private Dancer, que trouxe sucessos como What’s Love Got to Do with It,

consolidando sua posição como uma das maiores performers da história do rock. Sua voz potente, presença de palco explosiva e capacidade de reinvenção a transformaram em ícone global e inspiração para milhões de artistas ao redor do mundo.

Quando essas mulheres cantaram, não estavam apenas fazendo música. Estavam reivindicando o direito de existir, de resistir e de serem ouvidas!

A trajetória de Tina Turner é um exemplo de superação e de como a arte pode ser uma arma poderosa contra qualquer forma de violência ou apagamento.

 

Muito além da música

As histórias de Sister Rosetta Tharpe, Elza Soares e Tina Turner mostram que a música é também um espaço de disputa de memória e reconhecimento. Essas artistas enfrentaram racismo, violência e silenciamento, transformando essas experiências em arte, inovação cultural e inspiração para milhões de pessoas.

Antes de se tornarem lendas, muitas dessas mulheres precisaram lutar simplesmente para existir e serem ouvidas.

Neste Dia Internacional das Mulheres, lembrar dessas trajetórias vai além da homenagem. Significa reconhecer que vozes poderosas nasceram em contextos de adversidade e transformaram dor em expressão artística.

Sister Rosetta Tharpe, Elza Soares e Tina Turner não foram apenas divas. Foram mulheres que ajudaram a reescrever a história da música e ampliar seus limites, deixando um legado que ecoa até hoje.

Porque quando essas mulheres cantaram, não estavam apenas fazendo música. Estavam reivindicando o direito de existir, de resistir e de serem ouvidas. Essas vozes sobreviveram, e sua arte continua inspirando gerações.

Por Cintia Seidel e Thaty Giannotti