Após conquistar a cena internacional com o álbum “ÜL“ no último ano, o Mawiza retorna em 2026 ainda mais combativo. Representantes do chamado Indigenous Groove Metal, os guerreiros modernos da nação Mapuche seguem amplificando sua mensagem — e agora lançam o videoclipe de “Ngulutu”, uma das faixas mais intensas e confrontacionais do disco.
Originária de Wallmapu (Nação Mapuche), a banda chilena ganhou projeção global após passar pelo Silver Chord Studio, de Joe Duplantier (Gojira), e dividir palco com nomes como Mr. Bungle e Avenged Sevenfold. A revista Metal Hammer foi direta ao eleger o Mawiza como a banda de metal mais importante de 2025, destacando como o grupo utiliza a música pesada “como um megafone para gritar seu orgulho cultural e seu ódio ao colonialismo”.
“Ngulutu”: a tempestade do oeste
“Ngulutu” (que significa “Tempestade do Oeste” em mapuzugun) une groove metal avassalador a uma declaração explícita de guerra contra o avanço da decadência urbana e o chamado “progresso” das grandes cidades.
Segundo o vocalista e guitarrista Awka, o termo deriva de Ngulu (“Oeste”) e faz referência a uma tempestade abissal nascida no turbulento Oceano Pacífico, que atinge a terra em nuvens violentas e fragmentadas. “É uma declaração de guerra ao suposto progresso urbano, fundindo-nos como uma única entidade com a natureza”, explica o músico.
Embora escrita há seis anos, durante um período de levantes sociais no Chile, a música também resgata registros históricos do século XVI, quando o toki (líder guerreiro) Michimolongko e seus combatentes destruíram Santiago em 1541. A faixa funciona como tributo aos antigos guerreiros Mapuche e à força do território ancestral que permanece sob as cidades modernas.
O refrão evoca os espíritos dos rios Mapocho e Maipo, fundamentais para a vida na região. “Quando chove o suficiente, os rios transbordam e a ordem urbana entra em colapso. Isso nos lembra que a natureza é uma entidade ativa e indomável”, afirma Awka.
O videoclipe de “Ngulutu”, dirigido por Andrés Hetzler, reforça essa conexão entre ancestralidade e resistência contemporânea:
ÜL: o canto indígena que ecoa como manifesto
Lançado pela Season of Mist, ÜL — que significa “canto” em mapuzugun — representa a voz da terra e a materialização espiritual de um chamado ancestral. O álbum carrega uma missão decolonizadora e de empoderamento, afirmando que a natureza possui consciência e espírito.
Faixas como “Wingkawnoam” (“Descolonizar”) destacam o pensamento Mapuche e a importância dos sonhos como guias de vida. Já “Pinhza Ñi Pewma” nasce de um sonho de Awka envolvendo beija-flores (símbolo espiritual e ecológico), enquanto músicas como “Mamüll Reke”, “Wenu Weychan” e “Lhan Antü” incorporam ritmos que remetem a rituais xamânicos tradicionais.
O encerramento, “Ti Inan Paw-Pawkan”, conta com participação de Joe Duplantier e membros da comunidade indígena do Mawiza, consolidando a banda como ponte entre o mundo urbano e a ancestralidade. A mensagem é clara: é preciso restaurar o equilíbrio com a Terra — ou as consequências serão inevitáveis.
Musicalmente, Mawiza dialoga com nomes como Gojira, Soulfly e The Hu, mas constrói identidade própria ao fundir groove metal moderno com instrumentos, ritmos e filosofia Mapuche.

Tracklist ÜL:
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Wingkawnoam
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Pinhza Ñi Pewma
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Ngulutu
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Nawelkünuwnge
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Mamüll Reke
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Wenu Weychan
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Lhan Antü
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Kalli Lhayay
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Ti Inan Paw-Pawkan (feat. Joe Duplantier)
Formação:
Awka – vocal e guitarra
Karü – guitarra
Zewü – baixo
Txalkan – bateria e percussão
Participações:
Fabiola Hidalgo (Liquen) – vocais
Joe Duplantier (Gojira) – vocais
Com ÜL e agora o impacto visual de “Ngulutu”, o Mawiza reforça sua posição como uma das vozes mais urgentes e politicamente conscientes do metal contemporâneo — unindo tradição, resistência e peso sonoro em um só grito.
