Sabe quando você conhece muitas músicas de uma mesma banda, mas não a ponto de comprar a discografia dela? Este é o caso de parte dos fãs do Lynyrd Skynyrd no Brasil. Mas para quem achou que o público se acanharia diante de um setlist que abrangeria 62 anos de história, se enganou, pois a banda mais resistente do mundo, desfilou seus clássicos, um a um, e fez todo mundo cantar e dançar no Allianz Parque.
Às 18:20, noite recém chegada, os PA’s tocavam Panama, clássico do Van Halen, que a banda usa para esquentar a plateia. Lynyrd Skynyrd no palco, a história da música comandando uma verdadeira festa, bem na frente dos seus olhos: Workin’ For MCA abre os trabalhos de forma animada e dançante, enquanto Johnny, o caçula dos irmãos Van Zant saúda a todos, como quem chega de visita. Todo o estádio, surpreendente, respondeu muito bem: dançou, cantou, brindou… o clima era de celebração!
What’s Your Name embalou a “roda” mais diferente que eu já presenciei: ninguém batendo cabeça, mas um espaço para um baile. Foi muito divertido. Então, o primeiro super hit começou – That Smell! E é incrível como era possível perceber as famílias aproveitando o show juntas. Sabe aquela situação de “olha a música que o vovô gosta!” era satisfatório perceber esse reconhecimento no olhar da nova geração. Essa música levantou o estádio ainda mais, era como um êxtase! I Need You é o blues que conseguiu alguns feitos: casais agarrados, público geral abraçado, como se estivesse entoando um hino, além de ter sido a primeira música da banda a ganhar as luzes dos celulares.
Acredito que esse tenha sido o show mais diferente do Monsters of Rock, porque ele não tinha aquela energia caótica de artistas como Halestorm, ou até o que prometia ser o do Guns N’ Roses (e foi), Lynyrd Skynyrd trouxe para o Allianz Parque um quê de baile, de festa do interior, com quentão e histórias de família. Johnny Van Zant conversa com a plateia o tempo todo, perguntando se todos estão aproveitando bem sua cerveja e a boa música, e recebe de volta, gritos e letras cantadas a plenos pulmões, fato evidenciado em Gimme Back My Bullets, que é o puro suco do southern rock, com uma guitarra swingada e bem embasada pelo piano.
Um detalhe interessante é que, embora esse tenha sido o show “mais leve” do festival, o engenheiro de som, simplesmente “ligou o botão do dane-se” e deixou o volume dos senhores nas alturas. Estava mais alto que a guitarra do Yngwie Malmsteen, muito mais alta que a guitarra e a voz da Lzzy Hale (que muitas vezes se sobrepôs à bateria) e superior ao metrônomo de improviso de Nuno Bittencourt.
Para a entrada do próximo clássico, Johnny faz uma brincadeira com as backingvocals, enquanto conversa com o público como quer que aquele dia seja especial, e, Saturday Night Special começa com audiência animada e bem receptiva; cerveja na mão, braço erguido, cantando o que soubesse… um evento a parte. E essa energia seguiu nas três músicas seguintes: Down South Jukin’, Still Unbroken e The Needle and the Spoon. Então, a emocionante Tuesday’s Gone, que foi dedicada ao último membro original da banda, Gary Rossington, guitarrista que faleceu em 2023, mas que a banda não deixa de relembrar. Esse momento foi muito emocionante, pois Johnny pede para que todos levantassem seus copos e suas mãos, para saudar alguém muito especial para a família Lynyrd Skynyrd. E para seguir com a emoção lá no alto, o hino que o brasileiro ama: Simple Man. Quando os primeiros acordes começam, a bandeira do Brasil aparece grandiosa nos telões, como uma grande homenagem ao país que os estavam abraçando. Ela foi um capítulo a parte. É lindo olhar para o lado e perceber que aquela música tocou a pessoa de algum jeito único. As pessoas miravam o palco, como quem assiste à própria história passar pelos olhos. Acredito que ela seja a mais esperada, a unânime, que agrada a todos; desde aquele senhor que chorou a morte de Ronnie Van Zant, ao garoto que conheceu esta poesia na voz de Jensen Ackles, astro da epopeia Supernatural. O Allianz Parque iluminado com o celulares, inundado com as lágrimas do público e Johnny quase não cantou. São Paulo escolheu sua nova “Love of My Life”.
Gimme Three Steps, outro hit do primeiro disco, que faz uma piada com a difícil pronúncia do nome da banda, tira a plateia do transe e abre a pista de dança novamente. O mesmo entusiasmo segue para o clássico Call Me The Breeze, que é um cover de JJ Cale, músico que ficou famoso pelas composições Cocaine e After Midnight, ambas conhecidas na voz de Eric Clapton. E ainda no clima mais animado, Sweet Home Alabama (e eu sei que você leu este nome no ritmo do refrão)! O ápice do final do show. Incrível como numa apresentação tão recheada de hits, um em especial, é capaz de cativar toda a audiência. Acredito que Simple Man tenha sido esse hino, mas outra grande obra estava chegando.
Johnny agradeceu, disse que tinha feito um dos shows mais bonitos de sua carreira, e as primeiras notas da longa e emocionante Free Bird começavam. Junto com ela, um vídeo nos telões, mostrando os grandes nomes da cena que nos deixaram. O Maestro Andre Matos foi lembrado, assim como Paul Di’Anno, Ace Frehley, Eddie Van Halen, Neil Peart, Ozzy Osbourne… e todo o Lynyrd Skynyrd original. O Van Zant Caçula para de cantar e Ronnie assume o posto, levando todo o estádio às lágrimas.
Para cada pessoa um show tem um significado diferente: umas acham uma “curtição”, outras enxergam como a realização de um sonho, e outras um acontecimento histórico. Para mim, essa foi a minha graduação. A formatura de um curso que eu comecei aos dois anos, sentada no colo do meu pai, ouvindo ele me contar as histórias de cada disco que ele me mostrava. Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd, 1973, foi um deles!
Setlist
Panama (Van Halen)
Intro Video
Workin’ for MCA
What’s Your Name
That Smell
I Need You
Gimme Back My Bullets
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Still Unbroken
The Needle and the Spoon
Tuesday’s Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me the Breeze
Sweet Home Alabama
Free Bird
Texto por: Amanda Basso
Fotos por: Ricardo Mitsukawa














