The IVth Crusade (O peso da guerra, do som e da história)

The IVth Crusade é um álbum que não deve ser consumido de forma casual. Ele exige atenção, paciência e disposição para encarar seu peso conceitual e sonoro. Trata-se de um disco que transforma o death metal em narrativa histórica, crítica moral e experiência sensorial.

É importante, aqui, voltarmos o olhar para o ponto central do álbum: a crítica implícita às guerras travadas em nome de algo supostamente “sagrado”. Há uma ironia brutal nesse processo — a violência praticada contra aqueles que, muitas vezes, professavam a mesma fé. O Bolt Thrower consegue fazer com que essa contradição ecoe diretamente na música, que soa como um lamento pesado sobre a futilidade do conflito humano.

O álbum sustenta uma sonoridade coesa, baseada em riffs densos, andamentos médios e lentos, e baterias executadas como um motor constante, implacável, quase mecânico — reforçando a ideia da guerra como uma máquina de destruição humana. A atmosfera é sombria e opressiva, transmitindo uma sensação de tensão contínua, como se o conflito jamais tivesse fim. Os vocais de Karl Willets soam como a voz de alguém que já viu demais. Guturais arrastados e carregados de peso reforçam o conceito central do álbum: não há heroísmo, não há redenção, apenas a constatação brutal da violência legitimada por ideologias e crenças.

A escolha da arte de capa é cirúrgica. A obra do romancista Eugène Delacroix, A Entrada dos Cruzados em Constantinopla (1840), retrata a brutalidade da Quarta Cruzada na cidade, em 12 de abril de 1204. Delacroix não se detém em um triunfo glorioso, mas enfatiza o sofrimento dos conquistados e o caos da cena, refletindo uma abordagem crítica da violência histórica — um espelho visual perfeito para o conteúdo do álbum.

Outro aspecto fundamental para compreender The IVth Crusade é observar onde e como nasce o Bolt Thrower. Nos anos 1980, a Inglaterra vivia sob o governo de Margaret Thatcher. Apenas entre 1979 e 1983, o governo eliminou cerca de 1,7 milhão de empregos na indústria de manufatura, destruindo de forma permanente a antiga classe trabalhadora industrial. É nesse contexto que o Bolt Thrower surge, em 1986, na cidade de Coventry, no coração industrial da Inglaterra, em West Midlands. Uma cidade marcada por profunda transição econômica, pelo desmonte de estruturas públicas e pelo auge da reestruturação industrial da era Thatcher.

O ambiente era de decadência: fábricas fechando, jovens sem perspectivas, bairros inteiros assumindo um aspecto de cidade fantasma, imersos em recessão e desalento social. Paralelamente, o mundo vivia a intensificação da Guerra Fria e da ansiedade nuclear. O medo de uma destruição total não era abstrato — era real e constante. A ameaça de uma guerra nuclear permeava o cotidiano, refletida em produções culturais da época, como os filmes Threads e The Day After, que expunham sem filtros essa paranoia coletiva. Esse clima de colapso iminente dialoga diretamente com o peso existencial que atravessa o álbum.

Por fim, The IVth Crusade se encerra com uma das faixas mais marcantes do disco, ao menos do meu ponto de vista: “Through the Ages”. A música cita diversas guerras ocorridas ao longo da história, sustentada por uma atmosfera densa e riffs cadenciados e ondulantes, que fazem o ouvinte habitar plenamente esse peso sonoro.

É um confronto direto com a incerteza, em que o riff não apenas soa — ele oprime. O ouvinte sente simultaneamente o peso da música e o peso do mundo, como se a história estivesse se desenrolando em tempo real.

The IVth Crusade é brutal não por espetáculo, mas por consequência. Talvez seja exatamente por isso que este álbum permaneça tão relevante: ele não celebra a guerra — ele a condena através do som.

NOTA: 4 / 5

TEXTO POR HECTOR CRUZ